Retrato de Angústia

Era aquela fotografia que a angustiava. Um retrato de família que a fazia sentir deslocada. Cada vez que o olhava, ela desfazia-se e abandonava-se a um pranto desesperado. Ela não sabia de onde nasciam os soluços que lhe sacudiam o peito.
Ela via a figura de um pai grisalho, amoroso e com uns olhos que davam uma sensação de segurança. No entanto, via também uma mulher com o rosto marcado pela vida, uma face franzida e severa. Era esse contraste que a apoquentava. Uma família dividida e uma menina vestida de seda cor-de-rosa no canto da fotografia. Ela sempre foi considerada como a mais desprovida de atributos entre os irmãos. Não tinha um talento inato para a música ou uma capacidade precoce para as palavras. Era uma simples menina e comum para a sua idade. Mas isso não chegava e era-lhe exigida perfeição.
Sabia que tinha de se livrar dessa sensação de angústia. Tirou do bolso da saia a velha fotografia de família, acendeu um fósforo e encostou-o à ponta do papel, que se incendiou. Então deixou-o cair e ficou a olhar para ele, até que se transformou num pequeno monte de cinzas que um sopro de vento levou para longe.
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