Mudança de Tom

Notei uma mudança de tom nas suas palavras. Não percebo o motivo. Sinto uma ligeira aspereza no modo de sibilar as frases.

Ainda me lembro do dia em que recebi uma carta. Anónima.
– Um homem que assina Solitário Orgulhoso… – verbalizo.
Dizia que me via todos os dias no autocarro quando ia para o emprego, me seguia de longe com medo de falar, sabia que trabalhava numa empresa de gestão e todos os dias aguardava às seis horas, numa esquina discreta (não fosse ele Solitário Orgulhoso), que eu cruzasse a estrada, acompanhava-me do lado oposto do transporte (atento aos meus gestos e à maneira característica de morder o lábio), descia na paragem seguinte e vinha espiar-me da calçada, enquanto eu pensava o que seria o jantar. Assim que o meu marido chegava e me pregava um beijo no pescoço, ia-se embora roído de ciúmes.
Era casado também, mas não haviam beijos no pescoço. Dizia que não se separava pelos filhos e por pena da esposa. Dois filhos: um deles deficiente, uma doença rara e com tratamentos caríssimos.
– Uma vida sem sentido e nisto eu, a dar-lhe sentido à vida, agarrada ao varão do autocarro vinte e sete – lamentava a minha mente.
Não percebo como uma mulher da minha idade, agarrada a um varão, daria sentido a um Solitário Orgulhoso. Logo eu, que nem sou bonita. Sou baixa, míope e com um cabelo “escorrido”, do qual eu lamento ser possuidora.
O meu marido não é um Solitário Orgulhoso, antes um Solitário Indiferente. Tirando o beijo diário no pescoço, ao fim da tarde, nem uma conversa, quanto mais. Não tenho dois filhos: tenho uma filha com 23 no curso de Comunicação Social. Também não é bonita, coitada. Há momentos em que a noto a espiar-me e a fitar-me com ódio. Se arranjasse namorado penso que o ódio diminuía. Não arranja. Tranca-se no quarto.
– Outra solitária… Uma Solitária Revoltada! – penso.
Nem sei se o meu marido se dá conta. E no meio desta confusão caiu-me no colo o Solitário Orgulhoso e a carta de amor.
Antes gostava de receber cartas: até a propaganda dos supermercados me alegrava. Umas primas do Norte escreviam-me: cansaram-se. O meu marido, em certa ocasião enviou-me um postal, quando foi de serviço a Badajoz. Dizia: “Chego Sábado. João.”
E agora, numa altura em que não esperava, um homem que se exalta com o modo de me agarrar ao varão.
Na minha opinião, Solitário Orgulhoso é um pseudónimo bonito. Desde que a carta chegou, tenho procurado descobrir alguém no autocarro vinte e sete que me observasse. Não encontro. Quando muito adolescentes de mochila às costas, que cochicham entre si. Velhotas. Uma ou outra rapariga cujo cabelo me vence, todas mais altas que eu, todas menos gordas que eu.
Desisti de procurar. Passaram-se doze dias desde que recebi a carta e nem sombra de um Solitário que fosse também Orgulhoso.
Cá vou eu, agarrada ao varão do vinte e sete. Sinto uns olhos a espiarem-me. É aí que me percorre um arrepio.
Minimizo a situação e saio do autocarro, atravessando a estrada e passando por uma esquina discreta, onde um homem acendia o cigarro, riscando um fósforo na parede. Sinto que é ele:
– Numa esquina tão discreta, só pode ser solitário…
– …e orgulhoso também. – retorquiu o homem.
O meu coração apertou-se, mordi o lábio e deixei cair a mala aos pés dele. De um modo brusco, o homem baixou, entregou-me a mala e disse:
– É por isso que a invejo.
Não me atrevo nem a respirar. Ele continua:
– A sua personalidade reflecte-se na sua mala.
Fico estupefacta. Ansiei por doze dias a revelação do homem misterioso que assinava Solitário Orgulhoso e agora nem me tenta abraçar nem demonstra qualquer interesse nisso. Também diz coisas enigmáticas.
Comprei esta mala, há uns cinco dias, no centro comercial. Uma mala preta com uma rosa de gaze vermelha (inventam cada uma!). Pus a mala na gaveta dos lençóis de cetim, com a carta escondida no seu interior. Tive o cuidado de encostar as palavras Solitário Orgulhoso à rosa, a fazerem companhia um ao outro. Hoje abri a gaveta e lá estavam eles abraçados. Resolvi estrear a mala. Logo hoje que o encontrei.
– Invejo a sua despreocupação em não se importar com o que os outros dizem, em não se importar com a chamada de atenção que uma rosa de gaze vermelha pode dar. Se eu me pudesse dar a esse luxo…
Foi aí que notei uma mudança de tom nas suas palavras. Senti uma ligeira aspereza no modo de sibilar as frases.
Foi quando percebi que aquela carta anónima não era de amor, mas sim de confissão e ciúme. Era simplesmente um homem amargurado, um solitário, orgulhoso demais para dizer que me desprezava e invejava simultaneamente. Invejava o facto de eu ter um emprego, uma casa e um cônjuge que me dava beijos no pescoço. Desprezava-me por ter uma filha saudável, enquanto ele tinha um com uma saúde fraca.
Dei-me conta do quão sortuda sou. Um mulher que se pode dar ao luxo de usar uma rosa de gaze vermelha.
Apercebi-me da mudança de tom.
Compreendi que o tom das palavras escritas é diferente do tom das palavras faladas. Especialmente se forem ditas por um Solitário Orgulhoso…

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