"Pai, às vezes…"

Sei que pessoas ficam chocadas perante a minha insensibilidade em relação a este assunto. Algumas não sabiam que eu conseguia ser tão frio. A realidade é nua e crua e não adianta escondê-la. Já nada me choca.
Agora falo para ti (J.). Já sabias que a relação com o meu pai não era das melhores, mas acho que nunca pensaste que fosse tanto assim. Não estavas habituada à minha frieza e sei que é difícil compreendê-lo, mas pelo menos ouviste-me… 18 anos depois confessei-te, apesar de já o ter feito “por alto”.
A discussão foi o mote para a conversa. Falei-te do meu “pai”. Pai? Para mim esta palavra não tem significado. O que é um pai? O que funciona no momento da concepção? Ou o que dá carinho? Só conheci um, pois é o único que existe, mas nunca o considerei como tal. Talvez o chame de pai, apenas por comodidade ou por uma questão de contexto; talvez devesse chamá-lo “o homem que vive lá em casa”, mas isso chocaria alguns. Portanto, refiro-me aqui ao “pai” (com aspas, para não haver confusões).
“Pai”, pouco me lembro de ti. Não porque estivesse longe, mas porque, apesar da presença física, nunca foste um pai preocupado ou interessado.
Quantas vezes, em criança, brincaste connosco? Nos deste um beijo de boa noite? Ou simplesmente disseste “gosto de vocês”? Sinceramente não me lembro de uma única ocasião.
Sabes bem como sempre fui um bom aluno, mas nunca perguntaste se as coisas corriam bem, se precisava de algo ou apenas para dizer “parabéns, filho!”. Também não me lembro de nos chamares filhos, talvez porque nunca te apercebeste do teu papel.
As pessoas dizem “mas ele parece ser tão bonzinho!”. Não posso discordar porque nunca foste um homem agressivo que batia na mulher e nos filhos. Disso não te posso acusar. Mas a ausência de carinho custa mais que a dor física. Não que me doa ainda, até porque o tempo foi-se encarregando de acomodar a ausência e agora já nem o sinto.
Tens um problema, mas não o admites. Ou talvez já seja mais forte que nós. Mas não temos culpa. Podia arranjar 1001 causas para isto: desde causas orgânicas, psicológicas ou sociais até abordar teorias de Freud ou Piaget. Mas não o faço porque não me apetece.
Tenho poucas recordações de ti e as que tenho não são boas.
Lembro-me das tuas quedas, das discussões constantes, do dia em que esmagaste o meu bolo de anos ou do dia em que me deste um murro no estômago. Tudo recordações de uma criança. Chorava na altura. Agora não choro. Aprendi a ser apático.
Acham que te devia mostrar mais respeito, mas tu próprio nunca te deste ao respeito. Estranham por eu não te dar um beijo, mas não consigo fazê-lo. Não acham normal que eu não fale do meu pai; pensam que já morreste (penso duas vezes antes de dizer que não).
Sei que consigo ser muito frio e assertivo nas minhas declarações e que isso choca. Sei bem como sou e conhecendo-me perfeitamente, estou consciente daquilo que sinto (ou melhor, que não sinto).
Atrevo-me a dizer que quando morreres (não o estou a desejar, mas apenas a constatar um facto), não chorarei. Sinto tanto por ti como por pessoas que conheço há alguns meses. Talvez sinta mais que por ti.
No meio disto tudo, quem sofreu mais foi (e é) a Mãe. Tenho pena. Ela fá-lo por nós.
Agora, de uma simples discussão que tu criaste, disse tudo o que pensava. Falei, falei, falei. Parece que rebentou uma bomba lá em casa. Fui eu que a detonei. Era quase um tabu e eu não tive pudores. A Mãe esteve sempre calada. A T. também. Então tu nem argumentaste, pois sabias que eu estava a dizer a verdade. Ficou um mau ambiente, mas também nunca houve um bom ambiente.
Não nutro ódio por ti. Sou incapaz de desenvolver qualquer tipo de sentimento, quer seja ódio ou amor.
Gostava de saber o que pensas, quando te dizem: “Tem uns filhos espectaculares!”. Talvez o sejamos à nossa maneira, mas não o devemos a ti.
Não me sinto magoado. Não consigo. Mas também não nutro afecto.
Pai? Às vezes… pelo menos enquanto ocupas espaço físico.


Hoje, quando cheguei, estavas junto ao portão e disseste “Boa Noite”. Não respondi. Nestas ocasiões, sinto que sou uma pessoa má. Talvez. Mas não me importo…

20 de Dezembro de 2006. [22.50]
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Comentários

  • Joao Barciela  On Dezembro 21, 2006 at 16:49

    estou sem palavras.. a vida é mesmo assim.. =\

    abraço e parabens pelo bom blog!

  • Joaninha  On Dezembro 21, 2006 at 22:07

    =)
    “SEMPRE AQUI..”
    *

  • C.A.R.L.O.T.A.  On Dezembro 22, 2006 at 12:49

    li… e senti…
    e vrdd ngm sabe mas cmg passa-se o mm!!
    não da mm ma maneira, mas a maioria das vezes a ausência de carinho por parte dle evidencia-se…
    mas eu ainda digo eu Gosto dle e é vrdd gosto dle…
    mas nós temos k tentamos por vezes ver k estas coisas nos afectam mas qd estamos sós e em silencio pensamos nisto e dói demais!!!
    força e algo k te desejo!!!
    porque sei o k é!!!
    beijos
    boas ferias!!!

  • Joaninha  On Dezembro 22, 2006 at 15:36

    q?
    por favor…(tu sabes)
    *

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