Daily Archives: Abril 10, 2007

Desarmado


Continua o silêncio. Ela continua sentada no divã. Gostava de lhe dizer muitas coisas, mas não sei quais. Tenho nos meus gestos possíveis o impulso para falar-lhe, mas, ao preparar-me, interrompo-me ao meio. Gostava que agora existíssemos apenas nós, um diante do outro, os olhos a única garantia sincera de verdade.Conseguiríamos entender tudo o que já não somos capazes de verbalizar, mas que sobrevive dentro de nós.
A nossa casa. Está repleta de vozes, as nossas. Cresceram os segredos, como papéis escondidos dentro dos livros, como pormenores dentro de caixas de porcelana. Vejo-te passar pelo corredor, vulto coberto de pensamentos. Conheço todos os que levas contigo. Sei também que conheces todos os que trago, quando te observo. Reduzo-me unicamente a mim. Se tento ser aquilo que sou, existo algemado a essa ideia que criaste de mim. Contigo acontece o mesmo.
Agora, desejo a tranquilidade com que sonhámos nas tardes de um doce Novembro. A chuva lá fora e tu no divã. Noutras ocasiões, era eu no divã e tu aqui, a dizer o mesmo que eu, para o teu interior. Essa é a verdade, mas se, nessa hora, me tivesses perguntado, era quase certo que teria negado estas palavras. Do mesmo modo, se agora te perguntasse, não dirias que pensas o mesmo que eu. E se agora me perguntasses, talvez não dissesse que penso o mesmo que tu. Esta é a contradição que somos.
No entanto, agora, estou desarmado e sinto que não envelheço. Pousei sobre a mesa da cozinha todas as certezas do futuro. Deixei o passado no parapeito da janela.
Olho-te, sem que te apercebas, apenas com o prazer, recuperado, de olhar-te e de tentar desvendar os teus mistérios. Antes, acreditar era uma forma de não acreditar. Agora, acreditar é acreditar mesmo. Para sempre, seremos eu, desarmado, a olhar-te, a querer-te, e tu, sentada no sofá, desarmada, envolta em mistérios que tentarei desvendar, certo de nunca os conhecer.
Juntos, pararemos de envelhecer, escondidos no interior do tempo. Juntos, encontraremos as soluções que já soubemos e quisemos esquecer. Juntos, eu, tu, apenas juntos.
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Cumplicidade


Tenho saudades dos beijos cúmplices que traçavam a rota dos amantes. Nessas ocasiões, tudo se fundia e as nossas almas tornavam-se uma só. O desconforto natural de duas pessoas que pouco se conheciam, rapidamente se esfumava e condensava-se numa atmosfera carregada de erotismo. Tornava-se difícil esconder os sinais visíveis de dois corpos que se amam e se julgam pertencer. Era como se sucumbíssemos perante uma febre que assolava aquele espaço. O beijo, os beijos, os odores, os toques e carícias que se exploravam numa polivalência de sensações, uniam-se em locais recônditos. E era esta vontade de pertença que nos alimentava, na mais pura fusão de sempre.
Por entre os dedos, deixámos fugir tudo isto, mas na palma das mãos ainda permanecem vestígios da cumplicidade.