Decaimento


Há um problema? Não tinha dado conta, não percebo como isso nos possa ter afectado. Bebeste das minhas influências, isso é certo, mas tudo se manteve do mesmo modo. Igual, impávido. Sempre fomos os mesmos e não abdicámos dos nossos desejos e ambições. O poder das outras coisas era muito superior ao da nossa relação. Tanto que nem as fotografias resistiram. Por falar nisso, encontrei uma há poucos dias, entre as páginas do velho caderno em que escrevias. Já está velha, a fotografia, desbotada, um canto rasgado, mas o essencial está lá. O sorriso, esse sim. A cumplicidade, já nos ‘finalmentes’. Pouco me agarrei a essa recordação, tão efémera quanto o que se passou. Desta vez deixei-a cair, esperando que o vento a levasse ou o pó a tragasse. Sim, o pó. Já tomou conta da casa. Desde que nos separámos, até cogumelos cresceram no lava-loiças. Terão poderes alucinógenos? Espero que sim. Pelo menos esqueço-me dos coelhos que fizeram criação no sofá, depois da tua partida.
«Fui assim tão importante para ti, como julgo que fui?»

Enquanto penso, por trás do cogumelo, há um coelho que insiste em espiar-me.

*photo//:djo-123

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Comentários

  • João Cordeiro  On Maio 3, 2007 at 15:40

    Bonito texto. Gostei

    O sonhador

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