Monthly Archives: Junho 2007

Marta e as Sabrinas Vermelhas – XVI


(…)
Foram passos verdes em vegetação seca, que Marta ouviu. Olhou ao seu redor e apenas os sons naturais do mato e seus habitantes animais se distinguiam. Mais uns passos, crác, crác, passos secos em erva verde e a sua cabeça rodava à procura da origem. Olha para a sua roupa caída nos seixos, repara também em nuns pés, depois numas pernas, num tronco e nuns braços, repara que é um homem, olha nos seus olhos e sorri. Um rapaz, afinal. Bonito, de olhos castanhos, traço forte, barba aparada, bonitos dentes e ela sorria-lhe. Ele corou, «A menina desculpe, não reparei que estava alguém aqui. Costumava vir para este sítio há muitos anos» e escondeu a cara. Marta, divertida, saiu da água totalmente despida e os seus olhos faiscavam, enquanto se dirigia para junto dele. «Mmm, eu vou andando», dizia o rapaz e Marta estendia a mão, apresentando-se «Marta, prazer. Se pudesse sair de cima da minha roupa, eu evitaria um resfriado.». A vergonha não podia ser maior, mas Marta divertia-se e vestia-se naturalmente junto a ele, que por sua vez virava a cara para o lado contrário. «Podes virar-te que eu não mordo» e quando se virou, já ela estava vestida. Sorriram os dois e passaram a tarde à conversa. Ela descobriu que o seu nome era Nicolau e que ainda eram da família, primos em terceiro grau. Há três anos que não ia para aquelas bandas, «para lá do sol posto», como dizia. E Marta maravilhava-se ao ouvir histórias da cidade, cidade de luz, cidade de arte, cidade de pessoas, cidade de bem vestidos. Nicolau divertia-se com a sua cara e com a ingenuidade de menina que ainda possuía e até chegar a noite, nunca as palavras acabaram e menos ainda os sorrisos. Despediram-se com um beijo na face e Marta correu para casa, pois a noite era cerrada. E eis que quando chega perto, avista o vulto da sua mãe no alpendre. Temerosa, avança pé ante pé, até que a fúria da mãe lhe pergunta: «Onde estiveste a tarde toda? Cansei-me de trabalhar e nem apareceste para ajudar. Já te avisei tanta vez, tanta vez. Diz-me onde estiveste!» e o medo respondeu «Estive no ribeiro…», «Sozinha?», «… com o primo Nicolau». A mãe não se lembrava do primo Nicolau e mesmo se lembrasse, de nada serviria a Marta, pois antes de ter tempo de explicar, já havia levado um tabefe que lhe deixou a cara marcada por dois dias. Na profunda resignação, mas também revoltada, segura com firmeza uma cavilha ferrugenta e faz um enorme risco na parede do quarto. Mal sabia Marta que o seu desejo não tardaria a chegar e a mudança se daria finalmente no dia seguinte, com uma ajudinha do primo Nicolau.

(Continua)

*photo://MeninaLua

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O que é para ti um vício?

Para mim, não é algo definido, nem eterno. Pode ser o prazer momentâneo de um cigarro, a calma passageira da marijuana, o tranquilizar de um copo de álcool.
Mas os grandes vícios são as faltas, as saudades, os desejos. A saudade dos corpos que se amam e na mais pura intensidade se viciam, como se fossem um só.

Os vícios não são eternos. Os prazeres também não.

E tudo não passa de um se…


E se eu olhar para trás e for buscar o que esqueci?
E se me encantar por quem não devo?
E se tudo o que vejo não passa de uma ilusão?
E se me doer mais do que imagino?
E se mesmo que faça força, tudo correr mal?
E se vir que os dias não serão tão úteis assim?

A vida pode-se realmente mudar?

Por enquanto parece-me que sim e ainda bem.
Mas até quando?

Marta e as Sabrinas Vermelhas – XV


(…)
Rezas à parte, Marta nunca acreditou realmente em Deus, que para ela era apenas um deus pequeno. Era-lhe difícil perceber como Ele existia, como apareceu e como vivia lá naquele alto azul, no céu de ninguém e o padre Simão chamava-lhe herege, obrigava-a a confessar-se e afirmava «Se não te portas bem e não Lhe pedes perdão, não te deixo fazeres a primeira comunhão». Mas Marta pouco se incomodava com isso e, volvidas as costas, esticava a língua num ímpeto de menina rebelde. À medida que crescia, tornava-se mais mulher, mais bonita e sensual. Nunca se tornou católica, porque as pessoas a envergonhavam: «Tens um corpo capaz de virar a cabeça de muitos homens». Realmente tinha e os rapazes da aldeia já tinham reparado e estavam sempre ao redor da janela do seu quarto, mas Marta detestava-os. A sua mãe sempre que os via, corria com eles dali, ora com a vassoura, ora com a pá do pão. E Marta ria-se dessa caricata situação, mas depressa se calava quando a mãe lhe dava também com tais utensílios, dizendo «Tu é que tens a culpa! Muito fresca me saíste tu. Provocas a sede aos rapazes, porque és desavergonhada! Não tens cabeça nenhuma…». Continuava a bater-lhe e dizia «És uma calona. Mato-me eu a trabalhar e tu passas o tempo a mostrares-te, mas isto depressa vai mudar…». Marta nem se mexia, ouvia as humilhações e resignada, no fim de cada tareia, fazia um risco na parede velha do seu quarto, «Quando encher esta parede de riscos, isto vai mudar!». Mas os riscos iam aumentando e tudo se mantinha igual.
Houve um Verão quente em que Marta, já com quinze anos de vida, se banhava num pequeno ribeiro da aldeia e como tal, largava a roupa nos seixos cinzentos, pretos, amarelos, laranjas e rosa e molhava-se assim: livre. Não via mal nisso, mas se a mãe soubesse, depressa lhe chamaria cabeça oca ou até provocadora. Marta pouco se preocupava e persistia nesse quase ritual, até ao dia em que aquelas pedras onde largava as roupas foram pisadas por outro alguém. E Marta teve consciência que a partir desse dia, e apesar de a parede ainda não estar completamente cheia de riscos, a sua vida realmente mudaria.

(Continua)

*photo://red-n-pink

Imogen Heap – Glittering Cloud


I’m not always like this
It’s something, i become
A terrible weakness
In my nature, in my blood
Save me, oh save me, save me from myself
Before i hurt somebody else again

Domino motion jump starts when we touch
The blackout approaching
Here it comes now, wish me luck
It’s all over, it’s all over, it’s all over in a flash
I can’t remember,
What have I done now?

Go go faster wider
More more get it down ya
Dance dance take me over
Glittering Cloud

oh, my head hurts
Oh dear oh dear.

It’s all over the papers
On the TV, wagging tongues
The artist’s impression looks just like me
only… better
Don’t blame me, don’t maim me, I can’t help what I am
Oh, Lord knows i’ve tried to

Go go faster wider
More more get it down ya
Dance dance take me over
Glittering Cloud

Marta e as Sabrinas Vermelhas – XIV


(…)
João ouvia atento. A mãe de Marta não havia comparecido ao casamento, talvez não tivesse sido sequer convidada e então pouco a conhecia. Tinha-a visto umas poucas vezes e acabou por ficar sem qualquer impressão dela, tão calada que havia estado. Era a primeira vez que Marta falava dela e os seus olhos lacrimejavam dores. Recordar a infância nem sempre é um exercício fácil, porque por vezes há muita mágoa para relembrar e o coração não aguenta. A João apetece-lhe chorar também, mas desta vez é ele que cerra os dentes, com medo de Marta se calar. Nunca a tinha visto assim tão sincera, a deitar palavras em jeito de desabafo, com a cara vermelha e uma madeixa ruiva a tapar-lhe os olhos. Enquanto João ouvia, Marta despejava tudo o que tinha guardado para si em anos de vida.
As palavras levam agora para a visão da mãe, junto ao forno de lenha, com a cara suada e os braços farruscos da pá com que levava o pão ao lume. Este era um dos rendimentos da família, vender pão, além da agricultura. Eram tempos duros e apesar de ser filha única (coisa incomum para aquelas bandas), carinho, comida e dinheiro eram coisas que escasseavam. Do pai, recorda-se do funeral. Poucas pessoas, apenas as da pequena aldeia, seguiam o cortejo. À cabeça, seguia a mãe, em passos rápidos, resoluta e sem pestanejar. Ao seu lado, esforçando-se por acompanhar os seus passos, movia-se a pequena Marta. Também não chorava, sempre fora pouco próxima daquele homem que ia ali deitado. As tareias que ambos levavam enquanto em vida não lhes deixavam saudades. Marta até ia aborrecida, nos seus dez anos, a tapar os ouvidos para não escutar os pai-nossos, as ave-marias e os terços que as velhas beatas da paróquia rezavam a favor dele.
«Se Deus o receber, bem parvo é ele. Nem sabe como o meu pai lhe fará a vida negra…» pensava Martita, lembrando-se que não raras vezes o tinha ouvido a praguejar contra Deus. «Acho melhor avisá-lo antes que seja tarde demais» e agarrou-se também ela ao crucifixo, rezando à sua maneira, na esperança que Ele a ouvisse e barrasse a entrada ao seu pai. A mãe, pelo canto do olho, via a filha nesta azáfama de rezas e pensando que pedia pela alma do pai, puxava-lhe o cabelo, também na esperança que a filha se calasse e Deus não o recebesse na sua presença.

(Continua)

*photo://Requiem-for-her

I’m Growin’ Up

Sempre quis ser forte, sempre tive esse desejo. Nunca o fui, nunca tive forças para o ser. O que é ser forte? Não o sabia, mas quis sê-lo; não percebi o que implicava, mas desejei-o.
Mais tarde pediram-me para sê-lo. Ser forte por mim. E gritavam-me palavras de incentivo ao ouvido. Prometi que tentava e tenho conseguido. Vou ser eu agora, decido, determinado e forte. Porque gostar de mim até é bom e pensar menos nos outros, ainda melhor. Faz-me bem ser forte, faz-me bem mudar e isso chama-se crescer.
Agora sinto-me forte, como sempre quis.
🙂

Descobrindo Blogs – 12


Infinitamente – Um blog poético, escrito em espanhol, a partir da Argentina, mas sentido nas línguas do Mundo. O mote é «paseando el inFINIto».

Crossing Thoughts – «Pensamentos que nos (des)prendem da rotina». Um blog do imaginário, por dois jovens talentosos, com texto e banda sonora de nos fazer voltar à infância.

The heart beats in its cage – Da autoria da blogger Annie, é um blog estranhamente perscrutador das nossas almas. Intrigante, mas fica um desejo irresistível de ler/ver/ouvir o próximo post. Teve o seu fim há poucos dias e começou tudo de novo.

Carmencita – O blog de uma jovem com muito amor para dar e sentir, em que se compreende que é tempo para crescer e nunca é tarde para amar.

Marta e as Sabrinas Vermelhas – XIII


(…)
«Tenho de ser sincera contigo, há coisas que não posso mais esconder. Têm de ser reveladas, eu digo-te tudo…», diz Marta.
João, com os olhos incrédulos, fixa-a profundamente, toca-lhe no pescoço e pergunta:
«Juras?»
«Para que serviriam juras se não bastassem o sim e o não?«, suspira e afasta-lhe a mão.
O clima agora é seco e um vento quente invade a casa, movendo as cortinas. João, de joelhos, inclina a cabeça e encosta-a às paredes frias. Suspira e arrepia-se, um arrepio que lhe percorre a pele e o faz sentir-se incomodado, como se soubesse que as verdades que seriam ditas, iam mudar muita coisa. Marta não suspira, cerra o punho e os dentes e tenta expelir palavras, mas sente-se como quem cospe a sua própria língua. Em tamanha ansiedade, acaba por morder a bochecha. Leva os dedos à boca e sente o sabor do vermelho, sim, do sangue e sorri, num misto de nojo e loucura. E este sofrimento momentâneo leva-a a revelar tudo. João ouve com os olhos do coração e esses insistem em verter lágrimas finas, suaves e sentidas.
As palavras de Marta levam-na a uma pequena sala negra, suja do fumeiro de outrora. Vê uma menina sentada num pequeno banco de madeira, pensando em tudo o que não era permitido a uma criança. Pensa em beijos, pensa na Morte. Pensa que a Morte deve ser baça, míope, mas não má pessoa e os seus beijos devem ser frios, frios como a Morte. Pensamentos maus para uma menina. O Padre Simão já tinha alertado a mãe para a cabeça de vento da filha. Ao outro dia, que foi domingo, houve missa e sermão cantado. Pregou o padre de cima do altar, para ser ouvido com mais proveito, falando de castigos divinos e de pecados. A menina, a quem chamavam maria-rapaz, mas tinha Marta na certidão, estava sentada no banco corrido da igreja, com a «cabeça na lua», diziam e com as pernas penduradas, para cá, para lá, para lá, para cá, sem ouvir sequer o que se dizia. Sempre fora bonita e sabia-o. Usava o sorriso, sempre que queria um rebuçado do merceeiro e ele dizia «Tira um ou dois, mas não digas à tua mãe, minha cara bonita» e Marta menina tirava um, dois ou três, por vezes quatro. E calava-se, não o dizia à mãe, pois sabia que naquela mão calejada pelo trabalho do campo, pouca paciência e compreensão repousavam. Temendo um sermão pior que os do padre Simão, refugiava-se naquele banquinho de madeira, sabendo que quando a mãe chegasse, por alguma razão mesmo desconhecida, os humores não abundavam.

(Continua)

*photo://s0phistrious

Marta e as Sabrinas Vermelhas – XII


(…)
Cada passo demorado e lento em direcção a casa, era uma fuga às questões que o atormentavam. Cada pedra era pontapeada como fazem os miúdos quando regressam da escola. Aliás, muitos passavam por João, pulando e rindo em conversas descaradas, próprias da idade, mas nem reparava na ingenuidade e pureza dessas mentes. Ia absorto em si mesmo, no seu interior, fechado sobre si próprio e na única convicção que as dúvidas, essas eram constantes e atropelavam-no, atropelavam-no vezes sem fim, para a frente e para trás, na natural rebelião dos pensamentos e palavras. Perdido na sua própria confusão, acaba por chegar tarde a casa. Com ar de quem está entorpecido pela fraqueza, roda a chave na porta da entrada e sete voltas depois e menos duas trancas, encontra a casa silenciosa. Tomara ele que as suas dúvidas estivessem tão bem trancadas quanto a porta e a sua mente tão silenciosa como a casa; um silêncio oco, mas que é perturbado por sons abafados e pontuais. Era Marta que, sentada a um canto daquela sala moderna, abafava-se a si mesma, numa tentativa de não chorar. Era como se fantasmas a rodeassem e rodopiando, enchiam-lhe o ouvido com memórias do passado. Marta punha as mãos nos ouvidos e balançando a cabeça, dava ares de louca. Quando João se depara com esta situação, sente uma dor imensa e profunda, a dor de não conseguir partilhar a dor de Marta, a mulher que, apesar de tudo, continuava a amar. Em jeitos doces, agacha-se junto a ela e abraça-a com tanta força, como se não a quisesse perder. Um abraço que perdura, no seu entender, longas horas e assim ficam agarrados, naquela solidão, naquele momento em que as palavras não fluem, não falam e apenas o coração grita mais alto que tudo.
Deu-lhe um beijo na face e enquanto sentia a pele da bochecha dela, escutava a sua boca dizer:
«Minha querida»
E cada vez que o dizia, Marta sentia-se mais feliz, mais completa, mais forte. Cada abraço, cada beijo na cara, cada «Minha querida», fazia com que a sua língua se soltasse:
«Tenho muito que te contar. Muito que não sabes, muito que não imaginas sequer, muito do qual me envergonho. Quero libertar-me do peso das palavras, do passado oculto e da tristeza diária. Quero falar-te…»
Ao ouvir isto, João sente novamente a pele da sua bochecha e escuta a boca dizer:
«Minha querida…»

(Continua)

*photo://marlensoul

Marta e as Sabrinas Vermelhas – XI


(…)
O incómodo e a desconfiança pairavam sobre João. Ali estava ele, a escassos metros de Marta, qual voyeur e sem coragem de lhe exigir justificações e à sua misteriosa companheira. Não teria menos de sessenta anos, mas era uma mulher diferente, arrojada no mínimo. Pintava-se exageradamente com cores escuras e a roupa era bastante ousada, talvez até demais. Na mão direita ostentava uma cigarrilha e na contrária, uma luva de cabedal preto. Gesticulava muito e Marta ouvia, encolhendo os ombros ou baixando a cabeça. Do seu discurso apenas ouvia palavras soltas. «Passado», «Vergonha» e «Mentira» eram as mais ouvidas e perceptíveis.
«Chora, minha querida. Chora», pareceu-lhe ouvir. De facto, Marta tinha a cabeça quase no regaço, procurando esconder a fraqueza. E João, no seu silêncio, ao vê-la, perdeu toda a vontade de a questionar, pensando que afinal fosse uma amiga. Sentia vontade de dizer-lhe «Não fales, olha-me só com esses olhos. Só quero olhar para ti, olhos cansados, boca triste», mas nem para isso a coragem lhe chegava. A senhora levanta-se e parece ir embora; paga o café com duas moedas e toca na face de Marta. João teve quase a certeza de ouvir Marta chamar-lhe «Madre», mas a certeza também não lhe chegava. Pensa em todos os significados possíveis para a palavra Madre: a denotação espanhola, a freira, o ventre. Nenhum lhe chegava e por mais voltas que desse, não compreendia. Apetecia-lhe morrer, mas depois achava-se demasiado cobarde para o fazer. Em gestos quase mecanizados deixa uma moeda em cima da mesa, sem esperar o troco e dirige-se em direcção a casa pelo caminho mais longo. «Quanto mais tarde, melhor» pensa. De facto, o caminho mais longo é o do pensamento e a mente de João não o liberta das dúvidas e das incertezas. Tanto que enquanto caminha, nem olha por onde vai, já que para ele, os caminhos do coração, esses sim, são mais importantes.

(Continua)

*photo://kya-akai-aki

Rui Pedro


Ajude a encontrá-lo.
RuiPedro.Net

Marta e as Sabrinas Vermelhas – X


(…)
Muitos chás e bolachas nas semanas seguintes, permitiram que Marta e João se conhecessem melhor. O sorriso de um, era agora o sorriso do outro, um sorriso cúmplice e enamorado.
Não muito tempo depois, casaram-se entre muitos falatórios da família de João. E as conversas multiplicavam-se ora em que Marta era uma mulher estranha, ora em que não conheciam a sua família. Aliás, nenhum dos parentes de Marta compareceu ao seu casamento, nem pai, nem mãe, avô ou avó, irmão ou irmã, nem sequer um tio distante ou uma tia-avó. «Comportamento estranho», diriam muitos. «Talvez seja órfã», «Ou zangou-se com a família», «Talvez seja uma fugitiva», «Uma louca provavelmente», diriam outros. De Marta nunca obtiveram uma resposta, muito menos um sorriso. Nem do dia do casamento.
Marta não se vestiu de branco, «Uma afronta» dizia, já que não raras vezes se tinham encontrado em sua casa para consumir os desejos carnais, ora por vontade de um, ora por vontade de outro. Era uma Marta simples que se vestia naquele dia, sóbria e de ar discreto. Mas o João que se via era um homem renascido, de sorriso aberto e de olhos cintilantes. «Felicíssimo» diziam todos, mas de Marta nada afirmavam, achavam-na impenetrável, intocável.
O casamento de João não fora tão feliz como imaginara e o que obteve não foi amor, nem carinho, conversas ou passeios de fim-de-semana. «Uma tristeza», pensava.
Mas agora tinha-a nos braços outra vez e as palavras de Marta fizeram-no deixar para trás o flashback de há dez anos. Marta soltou-se do braço que a apertava e saiu da cama em passos descalços. Vestia-se agora à sua frente, deixara de lhe pertencer novamente, tornara-se novamente intocável, de rosto e mente fechados.
João precisou de esclarecer a sua cabeça, depois desta espécie de relação contratual. Vestiu-se e saiu também para andar, tomar um café e, nas suas borras, encontrar o sentido da vida. Ao longe, um menino de três anos ou de tal aparência, brincava, empurrando com o pé um carrinho verde de corda. João sentiu-se vazio enquanto o observava: deixou de ter mulher e filhos, esses nunca os teve. Cada vez que expressava esse desejo, o ar entediado que só Marta sabia fazer, logo o dissuadia. Os pensamentos de João são descontinuados quando numa outra esplanada vê (parece-lhe) Marta, chorando e falando com uma mulher, talvez de sessentas, de olhos fortemente pintados e decote provocante.
Não teve forças para se levantar, mas observa-as de longe, procurando ler nos lábios, as palavras que suspiravam em jeito de desabafo.

(Continua)

*photo://rubixcu8e

Sorrisos

Hoje disseram-me que a minha marca identificadora é o “sorriso de orelha a orelha”.

Será?

Um ano depois…


… sou isto. Eram 16 horas e 18 minutos, dia 23 de Junho de 2006, nasceu um novo blogue neste mundo enorme. Facto nada estranho, pois talvez outros tantos começaram no mesmo dia, mas este foi o meu dia, o dia em que comecei a descobrir o que era um blogue e para o que servia. Serviu para me conhecer a mim mesmo e para descobrir dotes desconhecidos, como a escrita.
E tudo começou com um beijo e com fantasmas da Teresa Fidalgo (sendo este último uma constante fonte de visitas, ainda hoje). Ver toda a minha vida durante um ano contida aqui, é absolutamente incrível. Além disso, conheci gente fantástica, pessoas que me acarinham constante, pessoas com conteúdo.
Este é um post de agradecimento, de recordação de um ano. Durante este ano blogosférico de 2006/2007 aconteceram muitas coisas: a minha querida amiga Susana ficou grávida, passei por fases de recordação do passado, perceber o significado da amizade, revelei as minhas taras & manias, percebi que era hora de mudar, recordei a minha infância, disse coisas que devia seguir ainda hoje, assisti ao belíssimo último episódio da série Six Feet Under e que ainda hoje revejo, enervei-me, queixei-me da Ministra Lulu, conheci melhor uma amiga com quem tive conversas de burkas, o blog começou a ser transmitido para o espaço, ganhámos medalhas em Gotemburgo, Obikwelu tornou-se o herói nacional, passámos pela fasquia dos 2000 visitantes, comecei a descobrir blogues, a Joaninha atingiu a maioridade, descobri com quem era parecido, criei um fotolog, fiz a maior declaração de amizade de sempre, criei o “Sofro de Otites“, recebi elogios,fiquei orgulhoso com 3000 visitantes, falei pela primeira vez sobre as 7 Maravilhas do Mundo, a Natascha Kampusch deu a sua primeira entrevista, a Susana soube que ia ter um menino, passei por problemas com uma mulher de quarenta anos, recordou-se o ataque ao WTC 5 anos depois, fui ao Festival de Música ao Rio Alviela ver Patrice, recordei os 6 anos do Big Brother, criei o blogue “A Vida do Baltasar“, partilhei o blogue, recordei amores passados, ia morrendo com uma infecção grave, falei sobre sexo, tornei-me especialista em lembrar-me de coisas, fui ao Dia da Defesa Nacional, sonhámos alto (mas por este andar…), o “Sofro de Otites” foi citado, criei um portfolio de textos, comecei a revelar o sedutor que há em mim, descobriu-se a verdade da Teresa Fidalgo, o blogue fez seis meses, contei segredos nunca antes revelados, fiz uma retrospectiva de 2006, recordei o grande tsunami, dois anos depois, passei pela meta dos 14000 visitantes, disse adeus a 2006, tive uma excelente passagem de ano, passei a fotografar para o deviantART,fiz 19 anos, comecei a escrever num forúm, falei no referendo sobre o aborto, agradeci as 17000 visitas, falei sobre séries televisivas, fechei o blog “A Vida do Baltasar”, comemorei o 501.º post, disseram sim à despenalização do aborto, sentiu-se um sismo em Portugal, critiquei o Dia de S.Valentim, um português venceu um concurso criado pelos Incubus, fui ao concerto da minha vida, depois do concerto atingi as 20000 visitas, criei o blog “Línguas de Perguntador“, tive problemas com o blogger que se mantêm ainda hoje, o David Rebordão enviou-me um email, foram anunciados os vencedores dos Oscars 2007, fui citado na revista Visão, levantou-se a polémica no país e no blog, ocorreu a primeira edição dos prémios YouTube, participei nos testes do Campeonato da Língua Portuguesa, iniciei o projecto “Sala de Espera“, fui ‘linkado‘ no site de Santarém, criei o blog “O Amor Expressivo“, falei sobre a polémica adopção por casais homossexuais, recebi o “Thinking Blogger Award“, o blog ganhou um prémio com tomates, comecei a escrever um conto e a estudar para os exames, atribuí os Prémios do Avesso fiz um amigo contra tudo e todos.
E assim se resume um ano. 646 postagens depois, o blog já atingiu cerca de 30500 visitas, recebeu 1091 comentários e é ‘linkado’ em 33 sítios diferentes.
Um ano depois, só tenho a agradecer. Obrigado.

Si Tu No Vuelves – Miguel Bosé & Shakira

Si tu no vuelves,
no quedarán más que desiertos
y escucharé por si
algun latido le queda a esta tierra
que era tan serena cuando me querias
habia un perfume fresco que yo respiraba
era tan bonita, era asì de grande, y no tenia fin.

Y cada noche vendrá una estrella a hacerme compañia
que te cuente como estoy y sepas lo que hay
dime amor, amor, amor estoy aquí, ¿no ves?
Si no vuelves no habrá vida no sé lo que haré..
no sé lo que haré
no sé lo que haré

Si tu no vuelves, no habrá esperanza ni habrá nada
caminaré sin ti, con mi tristeza bebiendo lluvia
que era tan serena cuando me querias
habia un perfume fresco que yo respiraba
era tan bonita, era así de grande, y no tenia fin..

Marta e as Sabrinas Vermelhas – IX


(…)
Com os olhos semicerrados, em habituação à luz que irrompia pela janela, João levantava a cabeça em direcção àquela porta. Da noite anterior (ou teriam passado dias?) pouco se recorda, mas as consequências estão bem visíveis. Sente-se febril, com água a escorrer-lhe pela testa em suores frios, alguns hematomas e escoriações na face, na cabeça e uma dor constante e repetida que o atormenta. No meio desta confusão, ali estava João, despido numa cama desconhecida, numa casa desconhecida e com “visões”, pensava. Quase que podia jurar que cabelos ruivos esvoaçaram, mais que uma vez até, para lá daquela porta. Enquanto confrontava a sua mente com as dúvidas e as incertezas, atentava no aspecto daquele quarto. Era uma divisão antiga, com um leve cheiro a mofo e o soalho de madeira com resto de cera cascada. Uma cadeira escura serve de suporte para um vestido curto preto e uma peça de lingerie da mesma cor e insinuante. A um canto, uma estante alta, repleta de prateleiras, gavetinhas e pequenos nichos, recheada de livros antigos, de lombadas grossas, amassadas e de toda a espécie de acessórios, desde anéis, pulseiras, colares, até elásticos e ganchos pretos para o cabelo. No chão, sapatos. Muitos, de todos os feitios (de plataforma, rasos, de salto alto, agulha, abertos, fechados) e várias cores. Tudo coisas que não condiziam com o aspecto humilde da casa. À medida que observava, já ele se tinha levantado muito a custo e pisava o chão frio; sente o soalho a ranger e num movimento brusco quebra uma jarra azul, que pousava, silenciosamente sobre uma mesinha. Ouvem-se passos em direcção ao quarto e João permanece imóvel, de pé, fitando a porta e sentindo um cheiro doce no ar. Num misto de medo e curiosidade, baixa-se e agarra uma chave grande, de ferro, de aspecto antigo, que estava caída. Mas quando levanta a cabeça, eis que uma figura familiar se lhe apresenta:
«Não seria melhor estares deitado?»
João não consegue acreditar no que vê e esfrega as pálpebras, vez após vez. Tantas semanas a imaginar um reencontro com Marta e num momento de desespero, em que julgava que isso não mais aconteceria, surge-lhe, quase por encantamento. João esfrega as pálpebras e Marta sorri; e Marta continua a sorrir, enquanto João continua a demonstrar a sua incredulidade.
«Não posso crer», era o que conseguia dizer-lhe. E Marta sorria. Estava mais bela que nunca: cabelo luminoso e mais curto, vestuário casual e um sorriso tranquilizador.
Assim se passam horas. João colocava as suas dúvidas, sabia mais pormenores acerca do acto bondoso para com ele e Marta, sorrindo, respondia e cada vez que molhava as bolachas de manteiga no chá, mais certezas tinha que a sua vida se cruzaria com a dela.

(Continua)

*photo://DreamSand

E só porque preciso de sentir a tua energia…


… vim escrever aqui. Há amizades estranhas e eu sinto isso na nossa. Não percebo como é que em tão pouco tempo conseguimos atingir este nível. Somos diferentes em relação aos outros, eu sei, mas somos tão iguais, tão semelhantes na nossa mente. [Duas cabeças pensam melhor que uma], dizes, e acrescentas que isso só acontece quando se tem uma só cabeça, em dois corpos. Complicado, mas eu percebo. Eu sinto a troca de energias entre nós e sinto que quando estás fraco eu fortaleço-te e o mesmo se passa comigo. Sempre fui um céptico em relação a muita coisa; mas contigo acho que te conheço há muitos anos e sinto a alma a encher-se depressa.
Dejá Vu, vidas passadas, trocas de energias? Eu não acredito, mas que há… há.

E tudo isto porque agora me sinto fraco. Melhor, sentia-me fraco, por que (tal como calculava) depois de o fazer, senti essa energia. Uma única energia.

[Só o faço por que, apesar da nossa amizade, sinto vergonha em ligar-te a esta hora.]

Prémios do Avesso – 1.º Aniversário 2007



No próximo Sábado, dia 23 de Junho, este blog “O Avesso dos Ponteiros” faz um ano de idade. A perspectiva de ter aqui contida neste espaço toda a minha vida de um ano era algo que sempre me levava a pensar em criá-lo.
Quase um ano depois, tenho muito para resumir, muito balanço para fazer, muitos agradecimentos para dar; mas isso fica mesmo para o Sábado.

Sendo assim, criei um alto galardão para recompensar o empenho e dedicação de outros blogs amigos. São os Prémios do Avesso, que serão atribuídos todos os anos, por altura do aniversário do blog, àqueles blogs que constam essencialmente da minha lista de links.
Para o devido efeito preparei “selos” como prova da atribuição do prémio. Os prémios do Avesso são divididos em categorias, totalmente escolhidas por mim, podendo variar todos os anos em género e em número. Aqueles a quem for atribuído o prémio poderão pedir-me o respectivo selo através de tiago.rafael1@gmail.com, para evitar que outras pessoas que não os vencedores os usem.
Vai daí, passo a atribuir os prémios:

Blog Amizade: Atribuo este prémio ao meu descendente mais directo. Um blog que foi criado por uma amiga, através do meu incentivo.
E o prémio vai para: “Sem Imaginação“.

Melhor Blog Romântico: Para mim é um blog essencialmente do coração, simples, despudorado e criativo.
E o prémio vai para: “Um Amor Atrevido“.

Melhor Blog Artístico: Atribuo o prémio a um blog que conheci recentemente, mas que é de uma criatividade imensa e um humor fantástico, um blog de banda-desenhada que não pretende ser banda desenhada.
E o prémio vai para: “A Dupla Personalidade“.

Blog Mais Divertido: Bem, esta categoria é imensa e poderia escolher muitos, mas optei por atribuir o prémio a um blog divertido q.b., de alguém que já teve outro blog e que passado uns tempos regressou com um novo espaço e uma nova companhia.
E o prémio vai para: “Una Nueva Volta“.

Blog Celebridade: Vai ser atribuído ao blog de alguém muito conhecido que nos anima logo pela manhã.
E o prémio vai para: “Dias Úteis“.

Melhor Blog Feminino: A atribuição deste prémio é absolutamente incontornável. Vai para alguém que mantém um blog excelente há três anos e que nem quando esteve grávida o abandonou.
E o prémio vai para: “BLOGotinha“.

Melhor Blog Fotográfico: É atribuído a uma figura importante no mundo da fotografia artística.
E o prémio vai para: “Rita Carmo|Fotografia“.

Melhor Blog Literário: O prémio vai ser atribuído a uma excelente escritora e que editou recentemente um livro.
E o prémio vai para: “Segredos Aos Pedaços“.

Melhor Blog Masculino: Também vai ser atribuído a um excelente escritor, que facilmente nos leva para o seu universo literário.
E o prémio vai para: “Sonhador em Full-Time“.

Melhor Blog Temático: Não passa de um versão portuguesa de outro blog, mas é brilhante o conceito de se enviar postais anónimos para dizer o que nos vai na alma.
E o prémio vai para: “PostCard“.

Blog Revelação: Um blog de alguém que sente muito e convida os outros a sentir também.
E o prémio vai para: “Coffee & TV“.

Parabéns aos vencedores. Para o ano há mais.

Marta e as Sabrinas Vermelhas – VIII


(…)
O pensamento de João manteve-se o mesmo durante semanas completas. Não lhe saía da cabeça aquela mulher, jovem singela e tão misteriosa. Tudo era vivido de novo, em flashes instantâneos, em epilepsias de movimentos, palavras, sons e cheiros: o modo como o sapato lhe caíra do pé, a tez rosada, as mãos pequenas e pálidas, o vazio sonoro do vão de escada, o beijo roubado, o choque da mão na face e o cheiro a flor de laranjeira.
«Marta, Marta… por que não me sais da cabeça», pensava João enquanto lá fora chovia; mas não se interessava se tinha deixado as janelas do quarto abertas e se a água já lhe molhava as cortinas e o tapete. Mal nenhum, a seu ver, comparado com a presença daquela mulher, na sua mente. O pensamento ratava e consumia-o por dentro, em desejos adulterados, como alvíssaras de se ter tocado aqueles lábios.
Mais uns quantos jantares sociais, mais umas quantas conversas de biblioteca, charutos diminuídos e senhoras acompanhantes e nem sinal de Marta. João não percebia porque não mais a tinha visto, mas percebia menos porque uma desconhecida lhe dava voltas na cabeça. Bebidas a mais, dias a fio, e o desespero que o destrói. Passa a ser frequentador de espaços, ditos de alterne, e todo o género de ruelas imundas, ocupadas por vidas amarelecidas. E o desejo pela desconhecida é directamente proporcional à sensação de cair no fundo do poço. Num desses dias deprimentes, de chuva cinzenta, João percorre as ruas em movimentos bambos e palavras inusitadas para as mulheres de vida, até que cai na calçada desfeita pelo tempo e pelas pessoas. Já nem sente a chuva, já nem sente a dor e ali fica até perder os sentidos.
Abre os olhos mais tarde e da chuva nem sinal, do corpo molhado também não. Apenas o corpo nu em contacto com os lençóis brancos e uma casa quase vazia, de aspecto antigo. Não percebe onde se encontra; pontos de referência, nenhuns e somente na cabeceira da cama, um velho crucifixo negro. Uma porta aberta dá acesso a outra divisão e naquele momento, apesar da fraqueza, quase jura ver uma cabeleira ruiva.

(Continua)
*photo://dead-lotus