Marta e as Sabrinas Vermelhas – II


(…)
O olhar transtornado e, ao mesmo tempo, maravilhado, não enganava. Havia qualquer coisa naquelas pequenas sabrinas e no seu tom vermelho intenso que modificava Marta. E agora ali estava ela, perante uma caixa de sapatos, imóvel qual estaca de jardim e os olhos inundados de lágrimas que teimavam em cair; mas chorava sem ruído, como se apagasse violentamente o que sentia. Os dedos tremiam agora e tocavam levemente nas pálpebras, secando e amparando as lágrimas.
O quarto dava um ar dramático à situação. Não era o quarto de casal, aquele em que não haviam demonstrações de carinho; mas era outro quarto mais pequeno, mais solitário, como se as divisões também padecessem desse mal. As cortinas eram velhas ou melhor, de aspecto vintage e de um tom violeta pálido e, na cama, a colcha de cor demasiado sumida para ser reconhecida. As paredes davam um ar de abandono à divisão diminuta e antiga, que destoava do aspecto geral da casa. E nisto Marta, de pé, com vontade de cair ou de sentar ou de qualquer outra acção que a impedisse de estacar, como se tivesse visto o sofrimento em pessoa. «Mexa-se», diria o Sofrimento. E Marta permaneceria imóvel, gritando e chorando sem ruído. Mas do sofrimento em pessoa não havia sinal, no entanto Marta sofria com o olhar daquelas sabrinas, não que isso a magoasse mesmo, mas angustiava o seu coração apertado, denotando nostalgia de algo muito querido.
João chega a casa, pára junto à porta e vê Marta calada, com os olhos a gritarem o que ninguém vê. Assustada, larga a caixa, as sabrinas e deixa cair o vermelho intenso no tapete da mesma cor das cortinas. Sai prontamente do quarto. João não sabe o que dizer, o que sentir, o que fazer para amainar o choro da sua esposa; aliás, a última vez que a viu chorar foi no dia do seu próprio casamento e nem quando a sua mãe morrera, há três anos, havia chorado. Marta já não era a mulher a quem um toque no ombro fizesse sentir-se melhor, mais reconfortada.
João senta-se no chão, encostado à cama antiga, de madeira escura, já com os pés parcialmente consumidos pelas térmitas e atenta na caixa caída. Cartão esbatido, amachucado, velho e roído e nele contidas, abraçadas por cetim, umas sabrinas (de tamanho 34, gritava a sola), vermelhas, vivas e intensas.
«De quem são? Por que teve aquela reacção?», era o que bichanava na mente de João. E a curiosidade aumentava a olhos vistos, enquanto sentado no chão, se lembrava da figura da esposa ausente.

(Continua)

*photo://x-horizon

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