Marta e as Sabrinas Vermelhas – VII


Nunca antes João, no seu círculo social, tinha visto aquela menina-mulher. Estranho facto, pois era já hábito frequentar todas aquelas festas e nem sinal daquele cabelo ruivo vistoso e daquelas mãos pura seda. Tentou perceber quem era, qual o seu nome, quem acompanhava, mas a cada passo dado em sua direcção, havia um toque no casaco, no ombro ou em qualquer outro sítio que o impedia. Até que, a dado momento, pelo canto do olho, verificou que alguém, diga-se um conceituado juiz, a puxava pelo braço e tocava com o bigode nesse belo pescoço. O sentimento inicial foi de repulsa por aquele par improvável, logo seguido de um sentimento de dó. A cada toque do juiz, ela revirava os olhos, cerrava os dentes e murmurava sons que lhe pareciam nãos. E não se cansava de observar, ora aquela beleza, ora aquele companheiro de aspecto duvidoso.
É chegado o fim da noite e todos se dirigem para a saída, em passos cadenciados, por umas escadas antigas de estilo vitoriano. João também o faz, com um charuto na mão direita e a mão esquerda cerrada, ansiosa, numa curiosidade desesperada. E ali estava ela, escassos metros à sua frente, à distância de um toque, de um sussurro e eis que um sapato lhe cai do pé, qual Cinderela dos tempos modernos. João baixa-se e pega naquele sapato (de tamanho pequeno, quão singela era) envernizado, de salto alto e cor preta.
«Desculpe, ainda não me habituei a eles», diz uma voz melodiosa, suave e indefesa, tal qual fora imaginada. «Não tem importância», afirma João num tom de voz semelhante ao que usaria se dissesse que a desejava. Os olhos cruzam-se, à média luz do vão de escada e cria-se uma cumplicidade imediata. João, impetuoso, surripia-lhe um beijo, como se sorvesse um doce. Um beijo que lhe soube a flor de laranjeira, um sabor igual ao cheiro. Um sabor que não dura muito, já que, ofendida pela ousadia, a mão suave dirige-se à face ruborizada de João e os pés singelos dirigem-se para a porta numa correria, como se tentassem alcançar algo.
«Espere! Não me disse o seu nome…», grita João, esperançoso.
E apenas um som se ouve:
«Marta…»
«Marta…», repete João para si mesmo, enquanto sente novamente o aroma de flores de laranjeira surripiadas.

(Continua)

Anúncios
Post a comment or leave a trackback: Trackback URL.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: