Marta e as Sabrinas Vermelhas – VIII


(…)
O pensamento de João manteve-se o mesmo durante semanas completas. Não lhe saía da cabeça aquela mulher, jovem singela e tão misteriosa. Tudo era vivido de novo, em flashes instantâneos, em epilepsias de movimentos, palavras, sons e cheiros: o modo como o sapato lhe caíra do pé, a tez rosada, as mãos pequenas e pálidas, o vazio sonoro do vão de escada, o beijo roubado, o choque da mão na face e o cheiro a flor de laranjeira.
«Marta, Marta… por que não me sais da cabeça», pensava João enquanto lá fora chovia; mas não se interessava se tinha deixado as janelas do quarto abertas e se a água já lhe molhava as cortinas e o tapete. Mal nenhum, a seu ver, comparado com a presença daquela mulher, na sua mente. O pensamento ratava e consumia-o por dentro, em desejos adulterados, como alvíssaras de se ter tocado aqueles lábios.
Mais uns quantos jantares sociais, mais umas quantas conversas de biblioteca, charutos diminuídos e senhoras acompanhantes e nem sinal de Marta. João não percebia porque não mais a tinha visto, mas percebia menos porque uma desconhecida lhe dava voltas na cabeça. Bebidas a mais, dias a fio, e o desespero que o destrói. Passa a ser frequentador de espaços, ditos de alterne, e todo o género de ruelas imundas, ocupadas por vidas amarelecidas. E o desejo pela desconhecida é directamente proporcional à sensação de cair no fundo do poço. Num desses dias deprimentes, de chuva cinzenta, João percorre as ruas em movimentos bambos e palavras inusitadas para as mulheres de vida, até que cai na calçada desfeita pelo tempo e pelas pessoas. Já nem sente a chuva, já nem sente a dor e ali fica até perder os sentidos.
Abre os olhos mais tarde e da chuva nem sinal, do corpo molhado também não. Apenas o corpo nu em contacto com os lençóis brancos e uma casa quase vazia, de aspecto antigo. Não percebe onde se encontra; pontos de referência, nenhuns e somente na cabeceira da cama, um velho crucifixo negro. Uma porta aberta dá acesso a outra divisão e naquele momento, apesar da fraqueza, quase jura ver uma cabeleira ruiva.

(Continua)
*photo://dead-lotus

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Comentários

  • João Barciela  On Junho 18, 2007 at 08:41

    Muito bom.. isto é uma´um tipo de “historia” ou conto que estas a fazer?

    abraço

  • Patricia  On Junho 18, 2007 at 13:06

    🙂

    estou deserta que acabem as frequencias/exames pra recomeçarmos os nossos textinhos d opiniao!;)

    Beijo
    boa sorte pros exames se tiveres!!**

  • Tigui  On Junho 18, 2007 at 16:37

    João: Sim, é. Em princípio é para ser editada em livro, em conjunto com outros escritores amadores e suas histórias. O “fio de ligação” é Cores.

    Patrícia: E eu! Muito ansioso para retomar à nossa sala de espera. Boa sorte para ti também. Hoje tive Português e correu muito bem.

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