Marta e as Sabrinas Vermelhas – IX


(…)
Com os olhos semicerrados, em habituação à luz que irrompia pela janela, João levantava a cabeça em direcção àquela porta. Da noite anterior (ou teriam passado dias?) pouco se recorda, mas as consequências estão bem visíveis. Sente-se febril, com água a escorrer-lhe pela testa em suores frios, alguns hematomas e escoriações na face, na cabeça e uma dor constante e repetida que o atormenta. No meio desta confusão, ali estava João, despido numa cama desconhecida, numa casa desconhecida e com “visões”, pensava. Quase que podia jurar que cabelos ruivos esvoaçaram, mais que uma vez até, para lá daquela porta. Enquanto confrontava a sua mente com as dúvidas e as incertezas, atentava no aspecto daquele quarto. Era uma divisão antiga, com um leve cheiro a mofo e o soalho de madeira com resto de cera cascada. Uma cadeira escura serve de suporte para um vestido curto preto e uma peça de lingerie da mesma cor e insinuante. A um canto, uma estante alta, repleta de prateleiras, gavetinhas e pequenos nichos, recheada de livros antigos, de lombadas grossas, amassadas e de toda a espécie de acessórios, desde anéis, pulseiras, colares, até elásticos e ganchos pretos para o cabelo. No chão, sapatos. Muitos, de todos os feitios (de plataforma, rasos, de salto alto, agulha, abertos, fechados) e várias cores. Tudo coisas que não condiziam com o aspecto humilde da casa. À medida que observava, já ele se tinha levantado muito a custo e pisava o chão frio; sente o soalho a ranger e num movimento brusco quebra uma jarra azul, que pousava, silenciosamente sobre uma mesinha. Ouvem-se passos em direcção ao quarto e João permanece imóvel, de pé, fitando a porta e sentindo um cheiro doce no ar. Num misto de medo e curiosidade, baixa-se e agarra uma chave grande, de ferro, de aspecto antigo, que estava caída. Mas quando levanta a cabeça, eis que uma figura familiar se lhe apresenta:
«Não seria melhor estares deitado?»
João não consegue acreditar no que vê e esfrega as pálpebras, vez após vez. Tantas semanas a imaginar um reencontro com Marta e num momento de desespero, em que julgava que isso não mais aconteceria, surge-lhe, quase por encantamento. João esfrega as pálpebras e Marta sorri; e Marta continua a sorrir, enquanto João continua a demonstrar a sua incredulidade.
«Não posso crer», era o que conseguia dizer-lhe. E Marta sorria. Estava mais bela que nunca: cabelo luminoso e mais curto, vestuário casual e um sorriso tranquilizador.
Assim se passam horas. João colocava as suas dúvidas, sabia mais pormenores acerca do acto bondoso para com ele e Marta, sorrindo, respondia e cada vez que molhava as bolachas de manteiga no chá, mais certezas tinha que a sua vida se cruzaria com a dela.

(Continua)

*photo://DreamSand

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Comentários

  • Rosa Silvestre  On Junho 22, 2007 at 22:25

    O conto das sabrinas é muito original….Tigui, espero que queiras fazer parte da corrente diferente!

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