Marta e as Sabrinas Vermelhas – XIII


(…)
«Tenho de ser sincera contigo, há coisas que não posso mais esconder. Têm de ser reveladas, eu digo-te tudo…», diz Marta.
João, com os olhos incrédulos, fixa-a profundamente, toca-lhe no pescoço e pergunta:
«Juras?»
«Para que serviriam juras se não bastassem o sim e o não?«, suspira e afasta-lhe a mão.
O clima agora é seco e um vento quente invade a casa, movendo as cortinas. João, de joelhos, inclina a cabeça e encosta-a às paredes frias. Suspira e arrepia-se, um arrepio que lhe percorre a pele e o faz sentir-se incomodado, como se soubesse que as verdades que seriam ditas, iam mudar muita coisa. Marta não suspira, cerra o punho e os dentes e tenta expelir palavras, mas sente-se como quem cospe a sua própria língua. Em tamanha ansiedade, acaba por morder a bochecha. Leva os dedos à boca e sente o sabor do vermelho, sim, do sangue e sorri, num misto de nojo e loucura. E este sofrimento momentâneo leva-a a revelar tudo. João ouve com os olhos do coração e esses insistem em verter lágrimas finas, suaves e sentidas.
As palavras de Marta levam-na a uma pequena sala negra, suja do fumeiro de outrora. Vê uma menina sentada num pequeno banco de madeira, pensando em tudo o que não era permitido a uma criança. Pensa em beijos, pensa na Morte. Pensa que a Morte deve ser baça, míope, mas não má pessoa e os seus beijos devem ser frios, frios como a Morte. Pensamentos maus para uma menina. O Padre Simão já tinha alertado a mãe para a cabeça de vento da filha. Ao outro dia, que foi domingo, houve missa e sermão cantado. Pregou o padre de cima do altar, para ser ouvido com mais proveito, falando de castigos divinos e de pecados. A menina, a quem chamavam maria-rapaz, mas tinha Marta na certidão, estava sentada no banco corrido da igreja, com a «cabeça na lua», diziam e com as pernas penduradas, para cá, para lá, para lá, para cá, sem ouvir sequer o que se dizia. Sempre fora bonita e sabia-o. Usava o sorriso, sempre que queria um rebuçado do merceeiro e ele dizia «Tira um ou dois, mas não digas à tua mãe, minha cara bonita» e Marta menina tirava um, dois ou três, por vezes quatro. E calava-se, não o dizia à mãe, pois sabia que naquela mão calejada pelo trabalho do campo, pouca paciência e compreensão repousavam. Temendo um sermão pior que os do padre Simão, refugiava-se naquele banquinho de madeira, sabendo que quando a mãe chegasse, por alguma razão mesmo desconhecida, os humores não abundavam.

(Continua)

*photo://s0phistrious

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