Marta e as Sabrinas Vermelhas – XV


(…)
Rezas à parte, Marta nunca acreditou realmente em Deus, que para ela era apenas um deus pequeno. Era-lhe difícil perceber como Ele existia, como apareceu e como vivia lá naquele alto azul, no céu de ninguém e o padre Simão chamava-lhe herege, obrigava-a a confessar-se e afirmava «Se não te portas bem e não Lhe pedes perdão, não te deixo fazeres a primeira comunhão». Mas Marta pouco se incomodava com isso e, volvidas as costas, esticava a língua num ímpeto de menina rebelde. À medida que crescia, tornava-se mais mulher, mais bonita e sensual. Nunca se tornou católica, porque as pessoas a envergonhavam: «Tens um corpo capaz de virar a cabeça de muitos homens». Realmente tinha e os rapazes da aldeia já tinham reparado e estavam sempre ao redor da janela do seu quarto, mas Marta detestava-os. A sua mãe sempre que os via, corria com eles dali, ora com a vassoura, ora com a pá do pão. E Marta ria-se dessa caricata situação, mas depressa se calava quando a mãe lhe dava também com tais utensílios, dizendo «Tu é que tens a culpa! Muito fresca me saíste tu. Provocas a sede aos rapazes, porque és desavergonhada! Não tens cabeça nenhuma…». Continuava a bater-lhe e dizia «És uma calona. Mato-me eu a trabalhar e tu passas o tempo a mostrares-te, mas isto depressa vai mudar…». Marta nem se mexia, ouvia as humilhações e resignada, no fim de cada tareia, fazia um risco na parede velha do seu quarto, «Quando encher esta parede de riscos, isto vai mudar!». Mas os riscos iam aumentando e tudo se mantinha igual.
Houve um Verão quente em que Marta, já com quinze anos de vida, se banhava num pequeno ribeiro da aldeia e como tal, largava a roupa nos seixos cinzentos, pretos, amarelos, laranjas e rosa e molhava-se assim: livre. Não via mal nisso, mas se a mãe soubesse, depressa lhe chamaria cabeça oca ou até provocadora. Marta pouco se preocupava e persistia nesse quase ritual, até ao dia em que aquelas pedras onde largava as roupas foram pisadas por outro alguém. E Marta teve consciência que a partir desse dia, e apesar de a parede ainda não estar completamente cheia de riscos, a sua vida realmente mudaria.

(Continua)

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