Marta e as Sabrinas Vermelhas – XVIII


(…)
O que se passou depois foi a aflição de uma menina perante a maldade dos seres humanos. Foi levada à força por aquele homem estranho, assistido à distância por aquela mulher, a quem sempre havia chamado mãe. Não sabia para onde a arrastava, tentou gritar, mas as cordas vocais paralisaram e então, já sem forças, deixou-se levar. A última coisa que se lembra foi um estalo na cara, que a fez bater com a cabeça na parede de pedra escura. Perante tal dor ainda viu a mãe sentada no vão de escada a contar dinheiro, muito mais do que ela teria visto na sua vida inteira. Nada mais se lembra.
Horas mais tarde acorda e sendo o calor tanto, levanta-se com a boca feita cortiça. Olha ao seu redor e vê uma longa, mas estreita divisão, de aspecto tenebroso. Sete camas, ou melhor, sete colchões ocupam aquele espaço; estão por fazer, com os lençóis puxados para baixo e as mantas remexidas. Roupas íntimas estão espalhadas pelo quarto, mais espartilhos, mais sapatos altos e bases, unhas de gel, batons, escovas e ganchos, junto com objectos de cariz desconhecido, mas assustador. Havia um grande desamparo naquele quarto, por isso começou a chorar como desafogo. E o espaço em que estava encheu-se de ruídos, passos e, se não era perdição dos ouvidos, para aquele lado soara uma voz anasalada, mas feminina, parecia-lhe. Não aguentou mais. Com medo que fosse aquele homem horrendo que a arrastara, encolheu-se num canto, como se levasse atrás de si todos os diabos do inferno e todos os monstros que povoam a terra, os viventes e os imaginados.
Uma voz parece-lhe ansiosamente perto e diz-lhe:
«Então querida, não tenhas medo.»
Marta encolhe-se ainda mais, olha para cima e vê uma senhora madura, vestida com uma saia reduzida e um espartilho preto, fortemente apertado. A sua face era tranquila, mas o semblante era franzido.
«Onde estou? Quem é você?»
«Foste vítima da ganância, como todas nós. São pessoas vis e más que julgam ter controlo sobre a alma humana…», responde-lhe e rapidamente os seus olhos brilham, prontos a lacrimejar. «E tu és tão nova… mas a beleza prejudicou-te. Oh, como foram capazes? Como eu gostaria de te ajudar…»
Marta cada vez entendia menos deste discurso emotivo. Restou-lhe confiar naquele rosto, que, apesar da desconfiança inicial, sabia que teria as respostas para muitas das suas perguntas.

(Continua)

*photo://x-horizon

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Comentários

  • João Cordeiro  On Julho 5, 2007 at 13:08

    Tigui, mais uma vez obrigado pela tua visita sempre constante ao lugar do sonho.

    A tua históra está a ganhar “asas” que nos levam ao imaginário…

    Abraço sonhador

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