Marta e as Sabrinas Vermelhas – XIX


(…)
«Desculpa, qual é o teu nome?»
E a menina sofrida levanta-se, já mais calma e pronuncia um sumido som:
«Marta»
«Marta, Martita… pobrezinha»
Assim, entre lamentos e confidências, sentam-se as duas na beira de um velho colchão. A sua nova amiga parecia-lhe de confiança e então, enquanto enxuga as lágrimas, ouve-a debitar um rol de palavras e de histórias. Percebe assim que está num bordel, casa afamada entre banqueiros e novos ricos, mas que não passa de um local de prostituição forçada, a troco de comida, simplesmente. E todas elas foram vendidas desumanamente como se de objectos se tratassem. Parecia-lhe estranho, mesmo para os seus 15 anos, que alguém pudesse vender mulheres, como se vendem bifes de novilho e afinal, havia sido, também ela, vítima do mesmo. A imagem da mãe, que realmente nunca lhe demonstrara carinho, surgia-lhe intermitente: sentada no vão de escada, a contar notas, passivamente.
Marta sempre desejara viver na cidade, mas agora, daquela janela com frades ferrugentas, não via a cidade luminosa, artística, nem revolucionária. Via, sim, a cidade manhosa, puta e alcoviteira; a cidade dos salamaleques, gravatas e maneirismos, emproada, contada por aquela mulher vinda da Argentina em busca de uma vida melhor, mas encurralada naquela pequena divisão, pequena demais para conter o sofrimento. Morandini, apelido pelo qual a chamavam, estava há já sete anos ali, mas a revolta continuava. E agora não podia crer que estivessem a utilizar aquela criança, como isco para homens casados: os intocáveis da sociedade.
Repentinamente a porta abre-se e entra uma outra mulher, desleixada, notava-se balofa nos seus excessos e desnutrida de vaidade e orgulho. A sua expressão é francamente intolerável. Com o pescoço cheio de carnes gordas admira atenta e pausadamente aquela miúda a quem trouxeram, enquanto Morandini balbucia, descrevendo-a como «a dona deste antro», «a quem mais ordena, força e condena».
Essa mulher aproxima-se de Marta:
«Levanta-te»
Estica a mão, agarra-lhe o queixo e movimenta-lhe o rosto, ora para cima, para baixo, ora para os lados. Nas suas poucas palavras, vira-se para Morandini e ordena:
«O teu trabalho é ensiná-la a comportar-se e arranjar-se. Os outros encarregar-se-ão do resto.»
Morandini estarrece, mas não contrapõe e a mulher sai do quarto, não sem antes exclamar:
«Dentro de duas horas terás o teu primeiro cliente»
E Marta principia a chorar tão baixinho que o mundo inteiro ouviu.

(Continua)

*photo://Razorbed

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