Marta e as Sabrinas Vermelhas – XX


(…)
Mais que uma menina, Marta era, a partir deste momento, uma mulher; chorosa, angustiada e repugnada com e experiência que tinha tido. Umas horas antes, não parecia a mesma: Morandini havia cumprido o seu papel e ajudou-a a pintar-se e a vestir-se e no fim, entregando-lhe uma caixa de cartão, disse:
«Toma, são para ti. Para calçares.»
Marta abriu e dentro da caixa, além de fitas de cetim, encontravam-se umas pequenas sabrinas de um vermelho intenso, vermelho de mágoa.
Foi assim que Marta se arranjou do modo que os homens, se é que se lhes podia chamar isso, endinheirados gostavam. Não todos, claro está, mas aqueles que eram clientes do bordel, apesar de serem cheirosos por fora, eram porcos e imundos nas entranhas das suas almas.
As gravatas de seda não escondiam a sua origem e os que chegavam, tinham à espera um quarto privado e recatado, numa qualquer ruela amarelecida pela ausência de esperança. Era lamentável que alguns tinham família, esposa, filhos e reputação, mas tinham também a maldade e o vil metal, que os julgava superiores aos outros. Já naqueles quartos privados demonstravam os seus desejos ardentes, serviam-se e iam embora, deixando-as ali, preparando-se para o próximo. E isto acontecia quatro ou cinco vezes por dia. Com Marta não foi diferente. Pela sua ainda meninice, a gorda do bordel, cobrara mais a um famoso juíz da praça. Tinha mulher, mas enquanto a mantinha controlada com um ou mais vestidos por semana, ela calava-se.
Marta não se esquece de o ver fechar a porta do quarto e ficar trancada no quarto. Sem falar, observava aquela pele jovem, aqueles longos cabelos ruivos e aquelas peças íntimas provocantes. Aproximava-se e ela resistia, debatendo-se contra a promiscuidade. Mas ele tinha mais força e dominava-a, enquanto ela via um animal a saciar-se. As lágrimas caíam-lhe e resistia com todas as suas forças morais àquele homem e ao que ela chamou «de horrível monstro».
E pela primeira vez depois do funeral do seu pai, pedia ao deus menor, que passasse a ser o seu Deus. Rezava e resistia, chorava e debatia-se, até que por fim, já satisfeito, ele a largou em cima da maldita cama. Vestiu-se e deixou a porta aberta atrás de si.
Depois desta ocasião, muitas outras se seguiram e, Marta-menina, Martita recebia homens diariamente, enquanto rezava àquele que se acabou por tornar o seu Deus.
Meses mais tarde, tornou-se também acompanhante de luxo e começou a poder sair do bordel, noites esporádicas, para fazer figuras em jantares e festas sociais. Era a preferida de um cliente rico da cidade, um juíz de bigode, que a tornou exclusiva e foi ele que numa noite, a levou a mudar de vida.

(Continua)

*photo://Angel-Soul

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