Marta e as Sabrinas Vermelhas – XXI


(…)
O seu nome era Xavier, Doutor Xavier, e quando conheceu Marta, exigiu logo à dona do bordel que ela fosse exclusivamente sua, a troco, claro, de um cheque com alguns zeros. A exclusividade paga-se, mas não se importava e assim a tornou sua, como uma mercadoria que recebe um selo. Foi também ele que a levou ao jantar organizado pelo pai do João, no dia em que os dois se conheceram.
Xavier achava-a adorável, mas também infeliz, com os olhos marcados pela dor e pelo rancor. O ódio de Marta pela mãe foi alimentado durante todos aqueles anos de subserviência aos homens e àquela mulher mal afamada. O seu protector, com os anos, passou a encará-la como filha e a ter repugnância do seu passado; como recompensa libertou-a do bordel e comprou-lhe uma pequena casa, modesta ao jeito de Marta, na qual ela pôde endireitar a estrada da vida.
Ainda se lembra claramente do dia do primeiro beijo com João. Para si, o seu único primeiro beijo, dado com sentimento, mesmo tendo apenas trocado uns olhares com ele. Mas para Marta, de todos os homens que se vangloriavam naquele jantar, João era o único que permanecia calada e que se revelava um verdadeiro senhor. Ainda se recorda do dia em que ao passar por aquela rua em que definhou tantos anos, encontrou o mesmo homem com quem tanto sonhara, caído na rua, à chuva, inconsciente. Depois de pedir a um transeunte que a ajudasse, levou-o para casa e, sozinha, secou-o e tratou-lhe das feridas do corpo, como se lhe tratasse o hematoma do coração.
João chorava agora. Marta já tinha secado. Nunca João tinha imaginado que dez anos de um casamento amargo e silencioso se devessem a um passado tão tenebroso, tão infeliz e à vida sovada que desde criança, Marta tinha tido. João sentia-se egoísta, sempre pensando que as atitudes dela se deviam a caprichos. Depois de casarem, Marta conseguiu a pulso liderar uma empresa e ganhar reputação inquebrantável, «Talvez fosse uma forma de vencer a vida, de compensar o que ela se recusou a dar-lhe», pensou.
«Quem era aquela mulher com quem conversavas na esplanada?»
Marta olhou-o estupefacta, pois não percebia como ele o sabia, mas limitou-se a responder:
«Morandini. A minha incansável Morandini. O bordel foi encerrado, finalmente a cidade abriu os olhos. Diz-se que foi Xavier quem tomou as providências. Morandini vai regressar a Buenos Aires e as outras mulheres ais seus países. Todas perceberam que nesta cidade, infame e carrasca, não conseguem ser felizes.»
Parecia que um peso lhe tinha saído das costas. Sentia-se mais livre, sem mentiras e sem vergonha do passado, do qual não tivera culpa. João surpreendeu-a: ouviu toda a sua história de infância e não pestanejara, nem sequer franzira o sobrolho; apenas o amor brilhava nos seus olhos e senti-o na ponta dos dedos.
Marta diz-lhe por fim:
«Há uma coisa sobre a minha mãe que não te contei ainda…»

(Continua)

*photo://Squeeba

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