Sete, Sete – I

O corpo jazia exangue no chão de mosaico branco, frio de casa de banho. A sua posição era a de olhos fixos no nada, parecia brutalmente assassinada, uma tesourada fora o seu fim. Quando a encontraram não podiam crer, ela parecia um ser angelical, de imaculada concepção, corpo perfeito, lábios definidos, mãos de dondoca. Foi a vizinha que deu o alarme, a dona Carmen do terceiro esquerdo que estranhou a porta aberta àquela hora da noite. Era taxista, profissão incomum para uma mulher, mas a necessidade o havia determinado. Aventurou-se a entrar na casa, bateu duas vezes na madeira de cerejeira, ninguém respondeu e entre com licenças e vou entrar, passava de divisão em divisão, curiosa e preocupada ao mesmo tempo.

«Vitória, estás aí?», gritava.

Era nova a Vitória, estudava Medicina, mudara-se para a cidade este ano. Era pacata, parecia-lhe e pouco falava com os outros inquilinos do prédio. Carmen conhecera-a em serviço. Chamaram um táxi à estação de comboios e eis que uma mulher com cara de menina lhe aparece.

«Rua das Tílias, por favor.»

O seu longo cabelo preto não passa despercebido, nem a sua pele perfeita, de cor morena uniforme, levemente dourada. Ainda menos lhe passa despercebido o destino «Rua das Tílias», o mesmo onde vive há vinte anos. Enquanto sintoniza o rádio em meio a chuviscos de ruído digital, no centro do trânsito infernal, Carmen mete conversa:

«Alguma preferência?», sorri.

«Diga?»

«Alguma estação de rádio que goste mais?»

A sua mão pára quando ouve uma música pop ao estilo que lhe parecia ser o da cliente. Esta encolhe os ombros como se não lhe interessasse muito a música e a conversa.

«Carmen, prazer.», insiste.

«Vitória Lima»

E assim se cala Carmen, mas acha-a distante. Na sua mente paira a curiosidade de lhe conhecer as origens e o porquê do seu destino, mas não queria parecer coscuvilheira.

Nos setenta à hora a que aquele troço da estrada lhe permite, a rapariga mexia os dedos constantemente, como se afligida pela ansiedade. As unhas eram compridas, de formato rectangular, cor de sangue de boi e com o indicador esquerdo raspava o verniz à medida que o respirar aumentava de frequência.

(Continua)

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Comentários

  • HugoBenjamim  On Julho 26, 2007 at 17:46

    A imagem escolhida é um quanto chocante e a narração bem misteriosa e desperta curiosidade!

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