Monthly Archives: Agosto 2007

Fingimento

Ele entrou na sala, viu-a e ao mesmo tempo sentiu que não a podia ter. Cumprimentaram-se quase a medo, medo que o coração os denunciasse. Um beijo na face, um abraço emocionado e contudo, era mais do que isso, eram palavras contidas em amassos de folhas, guardadas a sete chaves, escondidas de todos. Pediam que tomasse o papel de actor e ao mesmo tempo de fingidor, como o poeta. Não era capaz de o fazer, nunca fora bom a fingir daquilo que o coração está cheio.

O abraço serviu para num relance sonoro poder sussurrar:

– Quero-te.

As palavras ficaram contidas mal os braços se largaram: era um segredo demasiado doloroso para os outros, mas pior ainda para eles. Ficaram limitados a mãos no bolsos enquanto os olhares se descobriam. Ver os lábios e eles não se encontrarem, querer tê-la nos braços e não poder. A impossibilidade matava-os de vontade, desejo de se tocarem. Lembravam-se dos jogos que fizeram até se envolverem emocionalmente. Brincavam com o fogo, como se ele lhes fosse essencial. O desejo era o mesmo e nunca o tinham revelado por pudor ou vergonha. As palavras atropelavam-se como se cuspissem o que lhes havia enchido o coração. Estava tão cheio, tão completo e belo que o sentiam na boca. O coração a mil, o cérebro também.

Novamente a mil, agora frente a frente. O coração nas mãos, as mãos no coração. Os lábios que se mordiam, as palavras que fingiam. O desejo que crescia, o sorriso que se inventava. O quererem tocar-se, os corpos que se riam. As palavras ficaram escondidas para sempre, pedia-se que se conseguisse, que não se tentasse. O medo de tentar fora demasiado, talvez se tivesse deitado um bocadinho de Felicidade fora. Felicidade temporária, se calhar. Mas tinha o mesmo nome e cheirava ao mesmo: Felicidade. Tinha uns travos a paixão também. E canela. A vontade de arriscar era muita, porque o Amor também o era. «Não podemos», dizia. E não podiam. Talvez um dia se pensassem que também eles tinham direito a alguma coisa e pensassem também em si. Sonhava-se com o beijo trapalhão e todos os outros que se esgotariam num abraço.

Não chorou nunca. Nem mais. O que sentia era demasiado forte. Cerrou os dentes.

– O nosso problema sempre foram as palavras.

E partiu. Partiram. Quebraram-se os dois.

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Suspiro de Emoção

– Talvez ainda me apaixonasse por ti.

– Sabes, pensei exactamente nisso mas tive vergonha de o dizer.

– Estamos a entrar em terrenos perigosos…

– Ai, ai…

– Cada vez mais.

– Achas que dói?

– Acho que sim.

– Muito?

– É capaz de doer um bocadinho.

– Acho que é a impossibilidade que me faz perceber que o quero.

– Quem?

– Algo contigo. Um dia… 

Sentimentos são pântanos ardilosos e perigosos.

Devemos esconder o que se sentimos?

dp. 18. quase que fui crucificado por isto.

Ode à Torre

Bastou uma simples noite em frente a ti para que visses toda a nossa cumplicidade e química. Limitaste-te a ouvir todas as não-promessas, pois sabias que não podíamos dar mais do que demos. Sabes que a esperança é ilusória e que tudo dura o tempo que tem de ser.

Tocas às cinco da manhã, as tuas badaladas e aquele som característico teu. «Espero que uma coincidência te traga de volta», ouves tu. E vês um beijo.

Nunca mais te voltei a ver, Torre.

Torre do Relógio, Figueira da Foz. 18 Agosto 2007

Beija-me

– Beija-me.

– Sabes bem que não posso.

– Beija-me, por favor.

– Não me forces…

– Um beijo far-me-á feliz. Um só.

– Prometes?

– O primeiro criará sede em ti. Sei que não será o único.

Sete, Sete – VIII

(…)

A vida de Vitória na faculdade não foi fácil. Pela sua atitude introspectiva e calada, praticamente todos a olhavam de lado. Achavam-na uma pessoa estranha, tendo se identificado como anti-praxe e não fez vida de caloira. Ia a todas as aulas, mesmo que mais ninguém fosse. Tirava apontamentos excelentes e parecia que nada a distraía. Contudo, por dentro vivia isolada: do mundo e de si própria. Tinha poucos amigos, porque poucos se aproximavam dela, porque também ela nunca permitia.

Carlos era um dos poucos que se aproximava. Conhecido como o génio do curso, também sabia o que era ser posto de lado, ser olhado como o esquisitinho, o anormal. Carlos era o estereótipo do geek da faculdade: cabelo bem penteado, mocassins, camisa por dentro das calças, óculos graduados. Mas era bonito: de olhos verdes, levemente moreno. A primeira vez que tentou estabelecer contacto com Vitória foi quando a viu passar de novo os apontamentos de biologia humana:

– Precisas de ajuda? Vejo-te com problemas nessa legenda…

Vitória levantou a cabeça, surpreendida. Em seis meses ninguém lhe havia dirigido a palavra e eis que naquele dia aquele rapaz lhe oferece ajuda. Também nunca tinha sequer reparado nele, mas Vitória sorri como que retribuindo a atenção e aceita o esclarecimento. Até o achou simpático e sociável, acabando por ali ficar, descobrindo pontos em comum, químicas latentes, brilhozinhos nos olhos. A verdade é que nasceu daí uma bela amizade, improvável sim, mas pura.

E mesmo não tendo uma vida fácil na cidade, Vitória ganhou um pouco de mundo, um mundo amigo chamado Carlos.

(Continua)

dp. 17. negativismo

Temporal

– Vamos no próximo?

– Sabes, preferia estar aqui contigo. Não vamos já nesse. Anda beija-me. Sei que me amas.

– Sabes?

– Amas-me?

– Só até ao próximo comboio.

Star Actress

Porque amigos destes há poucos.

Porque acho que deviam perceber um mínimo da nossa amizade:

http://mansken.deviantart.com/art/Mano-63260900

dp. 16. foi do pão de alho.

Para (re)ler:

– Conto: Marta e as Sabrinas Vermelhas.

– Conto: Sete, Sete (ainda em fase de escrita).

– Crítica Musical: Forever – Ben Harper.

– Crítica Musical: 9 Crimes – Damien Rice.

– Concerto: The Gift @ Casino da Figueira.

Para ouvir:

– Música MP3: Nice and Sweet – The Gift

Para ver:

– Foto: The Gift em concerto

– Foto: Fios Eléctricos

– Foto: Summer ID

– Foto: The Gift no Casino da Figueira

– Foto: Farol

– Foto: Marina da Figueira

.

Bocas foleiras enojam-me.

 Simplesmente.

Laughing Blogger Award

 

Um muito obrigada à Carla do blogue “Sem Imaginação” pelo prémio que ofereceu a este espaço.

Carruagem 22. Lugar 93.

Sinto-me agora o viajante solitário que tanto anseio. Viajo de comboio, sereno e alheio à paisagem que se multiplica em diferentes tons de verde e ocres. Passam casas, estradas, pontes, túneis e o céu tão pouco azul, tão dúbio, em que não posso depositar confianças, nem certezas. Viajo sozinho e gosto disso. O banco de tecido verde ao meu lado está vazio e com ele viaja também a sensação de não pertencer a nada, a lugar nenhum.

Ouve-se o compasso acertado do comboio (passo agora pela negritude absoluta de um túnel) e conversas, vidas e aroma a naftalina passeiam juntos por estas bandas (luz novamente). Os passageiros não são como eu. Vejo-me unicamente a mim como passageiro da vida. Não tenho pressas, a vida passa-me ao lado, o meu destino é o da paz.

Ouço dois brasileiros a falar no banco ao lado. Irrita-me o açúcar que têm na voz, a forma como lambuzam em mel as palavras que proferem. Têm uma enorme mala preta no meio do corredor e isso incomoda-me. Não tento perceber o que dizem, tudo se assemelha a sons sibilantes e acentuações de vogais. Um deles parece-me homossexual. Não sou homófobo, não sou de estereótipos, contudo é a eles que a minha mente se entrega. Relego para a censura o preconceito e abstraio-me.

Reparo agora que quase todos trazem óculos de sol. Não tem muita luz aqui e até me irrito por não conseguir abrir a cortina verde-couve. Acho que se o fizesse, todos gritariam quais morcegos. (A simples ideia delicia-me).

E observo as vidas que jazem em bancos de napa verde.

Quantas memórias preencherão estes espaços? Quantas vidas não terão passado por aqui? Quantos amores aqui se revelaram? O que pensarão? Que ansiedades os afligirão? De quantos martírios e saudades serão portadores? Quais serão as histórias que contam? Qual será a sua origem, o seu destino? Férias? Trabalho? Simples vida solitária? Muitas perguntas, poucas respostas.

Uns bancos à frente, dorme um jovem, masculino, cabelos longos pretos, piercing no lábio inferior e óculos escuros. Qual a distância que terá percorrido, o que teria para contar?

À medida que acumulo quilómetros e minutos de viagem, o céu torna-se mais cinzento, pouco se importando com os dias possíveis de ócio dos seres que por aqui passam.

Back to The Real World

Parece que voltei ontem de férias da Figueira da Foz. Uma semaninha curta, mas intensa. Foram as férias que mais me marcaram por vários motivos. É verdade que foi o pior Verão de sempre, se é que ele chegou a existir, em termos de frio e chuva.

Foram poucos os dias de praia que aproveitei, mas foi agradável enquanto todos dormiam em casa e o relógio marcava 07.30H ir para a praia sozinho e tomar um banho fresco pela manhã. Foi bom ir tomar os meus longos cafés e ficar-me pelo jardim nas minhas poses pseudo-intelectuais com os meus sunglasses e os meus livros. (Li quatro em uma semana).

Foi óptimo arriscar o suficiente para sair sozinho à noite num sítio que desconhecia, sem ninguém conhecido, tendo de fazer 20 minutos a pé por entre escuridão absoluta e depois chegar ao picadeiro e meter conversa usando técnicas infalíveis. Foi fantástico ter conhecido tantas pessoas porreiras, que me pagavam bebidas e que tinham conversas excelentes. Foi um bom prenúncio aquela primeira noite na escadas em que conheci uma pessoa que me parecia excelente, que nunca mais vi entretanto. Foi um golpe de sorte quando cansado de não ter conhecido ninguém , decidi ir-me embora e vir por acaso à esquerda e conhecer o Gloss Caffe que mudou aquela minha semana. Foi boa aquela Reggae Beach Party no bar da praia O Bote. Foi lindo ter conhecido aquela menina que me deu noites fantásticas, que nunca se vão esquecer, no parque principalmente e aquela última noite na praia do relógio em que o Mundo foi só nosso. O concerto dos The Gift no recinto mágico do Casino da Figueira foi de bradar aos céus, a mesa em que conheci aquele casal fantástico que me pagou a conta… Tudo foi óptimo.

Foram as férias que permiritam que me conhecesse melhor, em que me senti mais bonito, mais confiante, mais sociável. E acima de tudo, na minha memória ficará a frase: «Vamos esperar que uma coincidência te traga de volta.»

E eu espero que sim. Sinceramente.

"Figueira, Figueira da Foz…"

Meus amigos, venho aqui picar o ponto para dizer que me vou. Vou de férias (uma semana, talvez) para a Figueira da Foz. Como tal, vou dar descanso a este e a todos os meus outros blogues. Espero que digam que vão sentir a minha falta, que me adoram, que deixem sugestões de sado-masoquismo, que digam que sou bom, que me deixem chouriços e feijoada tudo aqui na caixa de comentários ou no meu imeile. É preciso implorar?

Vou aproveitar a semaninha para tostar ao sol e ganhar um cancro, para me levantar cedo e ir para a praia, para fotografar, pôr a leitura em dia, escrever e ir ao concerto dos The Gift no Casino da Figueira.

Até lá, deixo-vos aqui sugestões para onde deixarem os vosso comentários (tudo meu)!

Línguas de Perguntador – Vai ficar sem a sua habitual pergunta diária por uma semana, mas contém ainda muitas sem resposta.

O Amor Expressivo – Recebeu esta semana uma nova contribuição e espero que enviem mais ainda para o meu email.

Pisares – Neste momento tem algumas críticas de músicas que gosto, desde Coldplay até Jeff Buckley. Quando regressar, actualizo com citações dos livros que li e respectiva opinião.

Simplicidade Complexa – O meu cantinho dos textos pirosos e depressivos é para ser todo lido e criticado, está bem?

Under the Bridge – O meu antigo fotolog e que agora voltou ao activo.

DeviantArt – A minha galeria fotográfica do coração e que vai ficar recheada quando regressar de férias.

Myspace – O meu perfil no “maispeixe” está uma pérola! Adicionem-se.

Declaro também que a competição com a Anaoj continua e que já só faltam 5,000 para eu ganhar.

“Tira o seu dedinho do meu cu que está doendo para xuxu” é a citação que vos deixo e com uma voz sensual e rouca termino com um:

até já.

Amor – Emoção Cliché

Dizer que te amo seria mais fácil se não caísse em desuso. Nunca fui de modas e tu sabe-lo bem, mas custa-me dizê-lo.

«Amo-te» sabe-me a café da Colômbia, contudo sabe-me a pouco. Não digo que te amo com medo que me olhasses surpreendida. Já não vivemos no mundo do amor, passamos pela era do adoro-te, do gosto-te, do amoro-te. Amor tornou-se cliché. Escreve-se sobre o amor com muito mais frequência, mas confundem-no com paixão.

Oh, saudades dos lenços de namorados, das cartas de amor da época colonial e no entanto tudo se perdeu. Dizer hoje que te amo é invocar uma marca comercial com direitos de autor e o amor tornou-se banal. Dizem que «amo-te» não lhes soa bem, que o português não tem música, que não ressoam sininhos. Proliferam «I love you» e «Je t’aime» sob o mote da caça à musicalidade do amor. E a Língua Portuguesa tem afinal tanto som, tanto paleio, cujo «amo-te» torna-se belamente pronunciado, requerendo movimentos de lábios fortemente entrincheirados e ouve-se então a intensidade do amor, palavra saboreada em português. O amor não precisa que inventem novas palavras, novos pseudónimos, nem que soe a notas musicais. O amor está cansado de ser a emoção cliché. Amar precisa de ser invocado, de ser sentido, de ser entoado com a alma e soar a um «amo-te» tão querido, tão intenso, tão português.

Carta

A dor grita-me. Dizias que me darias outro ânimo, mas não chegas. Fico sentado no chão térreo, de mãos nos joelhos esfolados e espero-te. Sobrevoo o quente de outros corações e todos me parecem sãos. Tento zelar pela saúde deles, enquanto o meu se despedaça. Está bem, eu espero. As folhas não caem, aquela luz do fim de tarde não chega, nem vejo os tons ocres e dourados.

O que é feito de ti? Espero-te de cachecol ao pescoço. Disseste que virias e cá te espero. Quando chegares, beija-me sussurradamente. Espero acordar no meio de folhas caídas.

Boa noite, Novembro.

Ruben Santos

São muitos os talentos portugueses para a música que passam despercebidos pelas editoras, talvez por não corresponderem ao género comercial pretendido, mas a verdade é que há por aí muitos bons cantores e compositores que vão tentando a sua sorte pelo mundo da internet. Hoje chamo a atenção para um deles: Ruben Santos.

Ruben Santos é um portuense que começou a tocar por volta dos 10 anos. É um auto-didacta, que aprendeu a tocar apenas com a ajuda de um livro oferecido pelo pai. Por anos tocou covers de Dave Matthews Band, Pearl Jam e Jack Johnson, mas em 2006 nasceu para a sua própria criação musical. O seu estilo percorre vários géneros musicais, que passam pelo rock, grunge, pop, blues e country, tendo em comum o som acústico da sua guitarra. Com dois álbuns produzidos e 28 canções editadas em inglês, tenta demonstrar a sua capacidade musical atrevendo-se a expressar todas as suas emoções através da sua música.

Na minha opinião, pode não ter uma voz fantástica ou pura, mas tem o essencial: bom ouvido para a música, muito talento e muita dedicação. No YouTube tem cerca de cem vídeos de covers e originais, tendo quase 230 subscrições. Soul Mate do álbum Waiting on a Sunny Day é das minhas músicas preferidas.

YouTube – http://www.youtube.com/rlisias

MySpace – http://www.myspace.com/rubenlisias

Hi5 – http://rubenlisias.hi5.com