Sete, Sete – V

(…)

Era um dia igual a tantos outros. Vitória vivia ainda com os pais. Prestes a terminar o secundário, ansiava atingir o seu objectivo: ter uma nota suficientemente alta para se candidatar a medicina. Ia conseguindo, à custa de muito esforço e uma vida social quase nula. A cabeça embrenhava-se completamente em livros e espairecia na fotografia.

Naquele dia, ligara rapidamente o computador e com a ansiedade evidente nas mãos, leu «Lomo-Shopper está online».

«É hoje» pensou. De facto, o encontro estava marcado para aquele mesmo dia. Estava nervosa. Não o conhecia, mas inspirava-lhe confiança, era divertido, diferente dos outros da sua idade e principalmente era também amante de lomografia.

Vestiu-se num compasso ansioso e trémulo. Esteve horas em frente ao armário, a fazer combinações de estilos e cores. Acabou por optar pelo simples vestido verde. Umas gotas de perfume e tudo perfeito. Olhou-se ao espelho e mirou embatucada o seu aspecto. Achava-se bonita. E enquanto o fazia, o tempo galopava até à hora marcada. Aliás, 25 minutos antes, lá estava ela, na esplanada da Baixa. Normalmente, pelas normas sociais, seriam os cavalheiros a esperar, mas Vitória negava-as, Ali estava, Holga pousada na mesa junto com o café e as pernas cruzadas.

15 horas. Vitória olhou para o relógio e pensou que ele estaria prestes a chegar.

15 horas e 15 minutos. Segundo café e uma água com gás e nem vestígio do amigo virtual.

15 horas e meia. Ouve um sinal sonoro, abre a mala e «Mensagem recebida». A medo, lê-a «Desculpa. Surgiu um imprevisto. Fica para a próxima. Lomo-Shopper». Não tem coragem para responder, mas o coração rasteja pela Baixa. Gostaria de o ter conhecido, aliás tantas conversas tiveram já, entre impressões acerca de lentes e rolos, fotografias enviadas e só faltava mesmo um tête-à-tête. Ficou desiludida.

16 horas. Liga o computador: «Lomo-Shopper está offline». Vê também a sua conta  de fotografia: «Zero comentários». E o que a afligia era saber por quanto tempo duraria esta ausência incerta, se até às dezassete, dezoito horas ou por longos meses de dor.

(Continua)

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