Blindness

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E se de repente todas as pessoas começassem a cegar?

De José Saramago pouco há a dizer, conheço alguns dos seus romances e a obra em questão, Ensaio sobre a Cegueira foi, curiosamente, das últimas que li. Em relação à adaptação da obra para o cinema, tenho a dizer que perante uma tarefa que se supunha impossível, Fernando Meirelles acabou por fazer jus ao romance, pelo menos até àquilo que é humanamente possível.

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De facto, o que imediatamente salta à vista quando começamos a ver o filme é a realização. Não consigo imaginar outro nome senão o de Fernando Meirelles para este trabalho. Do seu currículo imediatamente saltam à vista dois trabalhos: Cidade de Deus e O Fiel Jardineiro; mas é sobretudo com este Blindness que revelou mais a fundo o seu estilo de filmagem. Durante todo o filme, acabamos por nos sentir cegos e sufocados, tal e qual, como Saramago conseguiu que o seu espectador se sentisse durante a leitura do romance. Fernando Meirelles usa e abusa do experimentalismo, das cenas desfocadas e descoloradas, sempre com uma aura esbranquiçada, sempre com ligeiras ondulações e cenas tremidas. Afinal que melhor maneira de levar o espectador a sentir um filme em que todos os personagens são cegos? Não havia outra forma de transmitir o sentimento de uma obra que, por si só, já é megalómana e o possível temor de Fernando Meirelles não o deixou cair no facilitismo, para que o filme se tornasse mais comercial.

E é aqui que não compreendo as críticas que se levantaram em todo o mundo contra este filme. Serão os portugueses suspeitos, por ser a adaptação cinematográfica de uma obra de um dos nossos melhores escritores e o único, até agora, que nos trouxe o Nobel da Literatura? Ou isto tem a ver com a sensibilidade? É verdade que Ensaio sobre a Cegueira não é um filme fácil e precisa de contar com a disposição do espectador ou, caso contrário, não vale a pena, mas acima de tudo é um filme inteligente. E aí é que entra a crítica geral. Com o aparecimento massivo de blockbusters comerciais, o espectador geral acaba por se acomodar à leitura básica e superficial dos argumentos e isso não é o que Saramago, Meirelles e Don McKellar pretendiam.

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Tal como o romance, o filme aborda a temática de uma cegueira colectiva, de uma forma metafórica, conseguindo ao mesmo tempo traduzir os sentimentos das personagens de uma forma muito nua e cruel. As cenas e os cenários conseguem ser tão cruéis e reais que chegam até a ser agonizantes. A meu ver, o trabalho de fotografia do filme é merecedor de um Óscar. Os cenários são estrondosamente reais e, conseguem contrabalançar o facto de serem abrangentes, mas ao mesmo tempo específicos de uma grande catástrofe. Os ambientes são antagónicos à cegueira: soturnos, negros, decadentes e tristes, enquanto que a cegueira descrita é branca, como se flutuassem em leite, como O Primeiro Cego descreveu.

Fernando Meirelles conseguiu chegar ao âmago do livro. É verdade que existem muitas cenas potencialmente interessantes e comprometedoras que não surgem no argumento do livro e existem talvez algumas emoções por explicar, mas Meirelles conseguiu transmitir o essencial. Tal como pediu Saramago, no filme não existe alusão a um país ou local específico e todo o elenco é de uma grande diversidade de raças, o que acaba por gerar no espectador um temor maior, uma real noção que a epidemia de mal-branco podia ocorrer a qualquer momento e em qualquer lugar. Também as personagens não têm nome tal como no romance: mais uma vez Meirelles não caiu na ideia de tentar tornar o filme comercial. E faz todo o sentido: num mundo de cegos para que servem os nomes?

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Mesmo sem nomes, o elenco do filme parece ter sido escolhido a dedo e acaba por dar nas vistas. Sobretudo a interpretação fantástica de Julianne Moore, como a Mulher do Médico, digna de um Óscar, não fosse este filme visto como experimental, pela crítica mundial. Julianne Moore demonstra mais uma vez que o seu talento não é uma mera obra do acaso e que, mesmo com uma personagem tão difícil, ela não se amedronta. Afinal, a Mulher do Médico, por uma razão absolutamente inexplicável e da qual também não se quer explicação, não cegou e acaba por se tornar uma guia de todo o grupo: física e moral. Julianne Moore vê aquilo que os outros não vêem e encontra-se num dilema: estará abençoada ou amaldiçoada pela visão?

Mark Ruffalo, o Médico, mantém o nível de interpretação a que já nos habituou, mas obviamente que não consegue atingir a grandiosidade de Julianne Moore; ao contrário de Gael García Bernal que consegue, como O Rei da Camarata Três, transmitir todo o sentimento ganancioso da humanidade, tão bem descrito por Saramago no romance. Uma das grandes surpresas a nível de interpretação é a da jovem Alice Braga, tão bonita e espontânea como tinha imaginado a Rapariga dos Óculos Escuros, quando li o livro. A actriz revela neste filme a sua evolução, acabando por tornar a sua personagem mais periférica, como uma das mais interessante do filme. Danny Glover, o Velho da Venda Preta, é, a par de Julianne Moore, aquele que detém uma das mais importantes personagens e por conseguinte, de maior importância. Naquele que parece ser um alter-ego de Saramago, o velho acaba por se tornar num elo entre a clausura e o mundo lá fora, durante o filme (facto que é ainda mais explanado no romance original). Curiosamente, a sua personagem é aquela que antes de ser cego já o era parcialmente; no entanto, é ele que abre os olhos do leitor para a realidade da sociedade humana, levando-nos a questionar tudo o que conhecemos como aceitável; assumindo no filme também o papel de narração nos momentos finais.

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Das cenas mais marcantes do filme e que me emocionou foi sobretudo aquela em que as mulheres percorrem o corredor do manicómio, prestes a serem violadas, reveladores de uma enorme coragem. Também pela subtileza das emoções, é extremamente bonita a cena em que as mulheres carregam a que morreu durante as violações e num bonito gesto de altruísmo a limpam, antes de a enterrarem. Também, a cena do cão das lágrimas (apesar de não tão profunda e emotiva como no livro), acaba por nos conduzir à emoção imediata.

É incrível, como a fotografia do filme e a realização de Meirelles levam o espectador a aperceber-se como , em caso de cegueira colectiva, todas as estruturas sociais que conhecemos actualmente, deixariam de existir e/ou de fazer sentido, como o pânico e o temor se instalariam e como os instintos mais escondidos dos humanos seriam revelados, levando-os a agir quase como animais. Ao mesmo tempo acaba por revelar uma bonita história familiar e de como, sete pessoas, anteriormente desconhecidas, se tornam uma família. Uma nota: o final do filme é tão ou mais bonito do que imaginei quando li o livro.

Todo o filme é repleto de pormenores deliciosos, alguns deles apenas perceptíveis a quem leu o livro e isso acaba por se tornar um bónus para o leitor/espectador, que permite também que o filme não se torne uma desilusão para o mesmo. A banda sonora, a cargo dos brasileiros Uakti, é também digna de um Óscar. Meirelles conseguiu conjugar sons aparentemente desconcertantes e antagónicos do argumento, num belo complemento às cenas mais dramáticas e chocantes e mesmo às mais emotivas. Um rol de sons orgânicos e até primitivos, que se tornam numa das melhores bandas sonoras dos últimos anos, dignas de grandes compositores contemporâneos.

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Repito, Ensaio sobre a Cegueira é sobretudo um filme inteligente e alegórico e, parafraseando Saramago, lamentavelmente a estupidez não escolhe entre cegos e não cegos. É claramente um filme chocante e violento, mas uma violência claramente justificada e diferente daquela gratuita que abunda por Hollywood, logo custa-me perceber as críticas que daquele lado surgem. Blindness é um grande filme, que faz jus ao romance e possuidor de um excelente trabalho de realização de Fernando Meirelles, num argumento que acima de tudo tenta consciencializar. Ensaio sobre a Cegueira trata sobre o egoísmo humano e sobre aqueles que mesmo vendo, não vêem.

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